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Podcast Dispersando do SBBr: agora em versão transcrita!

29 de julho de 2010

O portal Science Blogs Brasil (SBBr), no dia 22 de abril de 2010, inaugurou o blog Dispersando para armazenar os podcasts oficiais do portal. Com o objetivo de aumentar a abrangência do podscast e torná-lo mais inclusivo, a partir de um movimento surgido no Twitter (como mostrado no blogue Never Asked Questions) formou-se uma equipe de pessoas dispostas a transcrever os podcasts.

Podcast Dispersando, do Science Blogs Brasil

Esta que vos bloga participou da transcrição do primeiro episódio, que pode ser ouvido na versão em áudio original lá no Science Blogs, direto da página do Dispersando.

A versão em pdf, transcrita pela equipe de voluntários, é esta:

—> DispersandoEpisódio1

Enjoy!

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Um tapinha DÓI, sim. E muito.

21 de julho de 2010

A coisa toda está, digamos assim, um caos. Não ouvi ainda UM especialista DE VERDADE – psicólogo, com formação em educação e conhecimentos suficientes sobre teorias de violência e punição – dar opinião sobre o assunto do Projeto de Lei 2.654/03, que pretende coibir o uso de “qualquer forma de punição corporal”. Mas já ouvi bilhões e bilhões de opinadores-sobre-todos-os-assuntos e falas de todo tipo de sabe-tudo, desde os que têm certeza de que estão certos até os que ainda não sabem direito do que se trata. E a pergunta continua: “palmadinhas educativas” são ou não boas para a educação de crianças?

Do ponto de vista jurídico, a lei está bem explicadinha aqui, no Consultor Jurídico.  Do ponto de vista pessoal – meu, só meu e de mais ninguém – , é mais uma lei que “não vai pegar”, como tantas outras nesse país, como a Lei Maria da Penha, por exemplo. Necessária? Talvez. Mas há que lembrar que o Código Civil Brasileiro e a Constituição já proíbem a agressão, a violência e a punição física a todo e qualquer cidadão brasileiro. Só isso já devia ser suficiente, né?

Mas, eu queria falar é de outra coisa. O que eu vejo nos debates é que as pessoas colocam agressão física no mesmo saco de qualquer tipo de punição. Tecnicamente, a punição acontece sempre que você introduz alguma coisa aversiva (desde um jato de água fria no nariz, um quarto escuro, até uma palmada, uma chicotada, um espancamento); ou então que se retira alguma coisa prazerosa (sem TV por uma semana, sem videogame até a nota melhorar, sem sua liberdade por dois anos).

O fato de se proibir que sejam aplicados castigos físicos (ou “corporais” como está na letra da lei) não quer dizer que não se podem usar métodos punitivos para educar. Só quer dizer, exatamente, que não se pode usar AGRESSÃO FÍSICA como medida educativa de crianças e adolescentes. Nesse ponto, particularmente eu acho que a lei está frouxa e mal escrita, e que deveria dar diretrizes mais objetivas, porque todo mundo sabe que cabeça de juiz é que nem bunda de nenê. (Ué? A juíza não negou o pedido de proteção de Eliza Samudio, com base na Lei Maria da Penha, com o argumento de que a lei só se aplicava à violência doméstica, e pra ela – a juíza – violência doméstica só acontece quando duas pessoas são casadas? Vai pensando…)

Mas, por que a “palmada” é tão difundida como meio de se educar crianças? Alguns tipos de punição são muito funcionais para quem pune. Eles fazem com que o comportamento de quem é punido desapareça imediatamente. E isso é muito reforçador para o punidor. E para o punido? Este aprende que emitir esse comportamento na presença do punidor vai gerar punição. Veja a sutileza: a punição não ensina o que deve ser feito, o que é adequado naquela ocasião, ensina apenas como SE LIVRAR da mesma punição. É assim que crianças aprendem que fazer birra com papai não funciona, mas com a mamãe dá mó certo! O uso da força física e da agressão, nesse sentido, é o mais eficiente de todos os tipos de punição, porque cessa imediatamente o comportamento inadequado. Mas não ensina o que é certo. Ensina apenas a não fazer aquilo denovo na frente de quem te bateu. Quem já foi criança sabe muito bem do que eu tô falando. A única maneira de ensinar comportamentos adequados é usando o reforçamento desses comportamentos. Só.

O problema da punição – de qualquer tipo – é que, além de não ensinar o comportamento correto, ela gera um monte de comportamentos de fuga e esquiva (aqueles que te livram da punição, como contar mentiras, fugir de casa, fazer coisas escondido dos pais, colocar a culpa no irmãozinho ou no coleguinha, encher a cara de vodka barata pra “esquecer” dos problemas, por exemplo) e comportamentos tecnicamente chamados de “contracontroles”, ou seja, coisas que fazemos para tentar controlar a fonte de punição, como desacreditá-la (“meu pai é um bêbado”), agredi-la de volta e até mesmo eliminá-la (Suzane Von Richthofen? Hm?). E mais, como se só isso já não fosse ruim o suficiente: quanto maior o grau de violência da punição, maior a probabilidade de que ela gere, na pessoa punida, efeitos colaterais como ansiedade, depressão, baixa auto-estima e agressividade. Porque se há uma coisa que a gente aprende rapidamente, e através de exemplos e modelos, é que a violência é um meio legítimo de se livrar daquilo que nos incomoda. É isso que você ensina para seu filho quando bate nele. Só pra exemplificar: Flynn (1999) descobriu uma correlação altamente positiva entre crueldade infantil com animais e quantidade de punição corporal que os pais dessas crianças usavam com elas. E Straus & Mouradian (1998) dizem na conclusão de seu artigo que:

“Quanto mais punição corporal experienciou a criança, maior a tendência para ela engajar-se em comportamentos antissociais e atos impulsivos. A punição corporal doméstica está fortemente associada a problemas de comportamento da criança.”

Pior ainda: a punição física recorrente gera, com frequência, uma habituação ao estímulo aversivo punidor. Ou seja, com o tempo, uma palmadinha não dói tanto, e não causa mais efeito. Você vai ter que bater com o chinelo… que com o tempo também não vai ter muita importância e você vai ter que dar uma surra de cinto… e assim vai até o espancamento. Isso é o que se chama comumente de “escalada de violência”, e quando ela começa, se não for interrompida, acaba muito mal. Para Skinner – é, lá vem o bom velhinho denovo, get used to it –  a punição não reduz a probabilidade que o ato punido re-ocorra. Ele usava uma pancada na pata de ratos ou um choque elétrico como formas de punição corporal, denominadas estímulos aversivos, em experimentos de laboratório. A punição, para o rato, apesar de diminuir inicialmente a freqüência de respostas punidas, não levava à extinção do comportamento, e, após um período de sob condições aversivas, o número de respostas emitidas pelos ratos punidos era praticamente o mesmo dos ratos não punidos. Ou seja, apesar de inicialmente diminuir a quantidade de respostas, a punição não faz o comportamento inadequado desaparecer, ela só causa tolerância. É quase como uma droga.

É claro que há outras variáveis que são também muito importantes para gerar adultos agressivos, e muitos vão dizer “mas eu sempre tomei umas palmadas quando criança e não sou uma pessoa agressiva!”. Mas imagine uma pessoa que, além de apanhar sempre que faz uma coisa errada, não tem exemplos adequados dos pais e familiares, não estuda em uma instituição que se preocupa com a formação global do cidadão, mora numa vizinhança violenta, vê todos os dias as notícias horrorosas do Datena e teve algumas experiências em que usar de violência e agressividade resolveram alguns problemas na sua vida. Junte isso tudo e com muita certeza você terá um adulto com grande probabilidade de ser violento, agressivo e ansioso. Se você acha que esse quadro é um exagero, coloque o nariz pra fora de casa por um dia e conheça as crianças que moram no seu prédio, na sua rua…

O que eu ouvi muito esses dias é que “se a criança não toma umas palmadas, ela fica sem limites”. Sinceramente ainda não entendi o que são esses tais desses limites. Mas minha idéia é que o ser humano já desenvolveu uma técnica bem mais efetiva de estabelecer limites abstratos, e ela se chama “formulação de regras”. Uma regra adequada é aquela que descreve uma situação, o comportamento que deve ou não ser emitido e a consequência que esse comportamento terá. Nesse sentido, leis são regras, fazer ciência está baseado em regras, e educar uma criança é, praticamente, ensinar regras. “Quando estiver na mesa, não jogue a comida no chão, porque isso vai fazer você ficar de castigo, ok?” é prático, rápido, deve ser seguido tanto pelos pais quanto pelas crianças e o melhor, funciona. Pode não funcionar imediatamente, e provavelmente não funcionará até que a criança “teste” a regra, até que ela jogue a comida no chão e fique de castigo por causa disso. Mas quem disse que educar uma criança é fácil, rápido, indolor e certeiro? E se você acha que crianças pequenas não entendem regras é porque nunca conviveu com uma.

Essas informações não foram tiradas do ar e nem do pensamento lógico de ninguém: são dados experimentais muito bem estudados, replicados e confirmados. Segundo Longo (2001):

“Para se ter uma idéia de tamanho interesse e preocupação em estudar os efeitos da punição sobre o comportamento, existem, por exemplo, mais de 8250 artigos científicos publicados sobre Punição na base de dados eletrônica PsycoInfo, do período que vai de 1887 a abril de 2001. Esta base de dados internacional disponibiliza artigos de mais de 1.500 periódicos em Psicologia.”

Mas castigo não é punição? Elementar meu caro leitor: castigo é um tipo de punição que não envolve violência física. É uma maneira bem mais branda de punir, que ensina (além de fuga e esquiva e contracontrole muito mais brandos e até adequados) que alguns privilégios são diretamente ligados a determinados comportamentos que devem ser emitidos. Retirar a liberdade de um criminoso tem a função de fazer com que ele “aprenda” que conviver em sociedade requer o seguimento das leis. Do mesmo modo que ficar no cantinho por cinco minutos ensina uma criança pequena que brincar na sala requer que ela não quebre os vasos da mamãe. É um tipo de punição em que há maior probabilidade de o comportamento de fuga esquiva seja coincidente com o comportamento adequado. Além disso, o castigo tem a grande vantagem de impor o tal do “respeito e autoridade” dos pais, outro argumento muito usado pelos opinadores de plantão. A pessoa que tem a “autoridade” de ditar as regras é percebida, quando essas regras são justas, coerentes e objetivas, como aquele que detêm o poder e que deve ser respeitado. De novo, essa autoridade nunca será alcançada do-dia-pra-noite, e é óbvio que só dar regras coerentes não torna uma pessoa instantaneamente um boa fonte de regras. Mas se não suficiente, pelo menos é necessário. Pesquisas têm mostrado que, em se tratando de educação de crianças, a coerência e a constância entre comportamento inadequado e punição justa surte mais efeitos positivos e duradouros do que o tipo e o grau de violência da punição em si.

É claro que há também muitas pesquisas indicando que punições físicas funcionam e há muitas pessoas minimamente “estudadas” que apóiam a pedagogia da palmada (entre eles o Içami Tiba). Quem tiver curiosidade de conhecer estudos contra e à favor da punição física/corporal, dê uma olhada na maravilhosa tese do Cristiano da Silveira Longo, disponível on line: “A Punição Corporal Doméstica De Crianças E Adolescentes: O Olhar De Autores De Livros Sobre Educação Familiar No Brasil (1981-2000)”.   Infelizmente nenhum dos argumentos deles me convenceu, e eu não vi dados experimentais que digam que métodos de punição corporal sejam mais eficientes do que outros métodos de punição mais brandos e não físicos. E, principalmente, nenhum mostrou que NÃO há efeitos colaterais da punição física a longo prazo. Em se tratando de formação de seres humanos, minha humilde opinião é de que É MELHOR NÃO ARRISCAR.

Referências:

Longo, C.S. (2005). Ética disciplinar e punições corporais na infância. Psicologia USP, 16(4), 99-119.

Do Carmo, P.H.B. (2009). Práticas Educativas Coercitivas E Crenças Sobre A Coerção Em Mães De Diferentes Níveis Socioeconômicos. Tese de Doutorado. Universidade Federal da Bahia.

FLYNN, C.P. (1999) “ Exploring the link between corporal punishment and children’s cruelty to animals.” In: Journal of Marriage and the Family. Nov; Vol 61(4): 971-981

STRAUS, M.A., MOURADIAN, V.E. (1998) “ Impulsive corporal punishment by mothers and antisocial behavior and impulsiveness of children.” Behavioral Sciences and the Law. Sum; Vol 16(3): 353-374.

Outros artigos bacanas sobre o assunto:

Tapinhas Machucam Sim. (Lidia Natalia Dobrianskyj Weber – Universidade Federal do Paraná)

O Comportamento Violento Como Interação Social E Prática Cultural: Uma Análise Comportamental. (Silvia Helena Tomazella e Pedro Bordini Faleiros – Centro Universitário Hermínio Ometto/Uniararas)

Práticas educativas parentais: um estudo comparativo da interação familiar de dois adolescentes distintos. (Ana Paula Viezzer Salvador e Lidia Natalia Dobrianskyj Weber – Universidade Federal do Paraná, Curitiba)

O termômetro das relações sociais

15 de julho de 2010

IJzerman, H., & Semin, G. (2009). The Thermometer of Social Relations: Mapping Social Proximity on Temperature Psychological Science, 20 (10), 1214-1220 DOI: 10.1111/j.1467-9280.2009.02434.x

“Esse cara é quente!”

“O show tava meio morninho.”

“Ele me deu uma gelada…”

Quente, morno e gelado são palavras que usamos para descrever a temperatura de coisas e também servem de metáforas que expressam diferentes julgamentos sobre o quão desejável, agradável ou próximo as situações ou pessoas são e estão de nós . É um dos muitos exemplos em que vemos conceitos abstratos sendo formados com base em experiências concretas.

No artigo “The thermometer of social relations: mapping social proximity on temperature”, os caras armaram experimentos muito espertos para verificar a relação entre a experiência concreta (neste caso usaram as sensações de calor e de frio) e os sentimentos e abstrações que apareceram conjuntamente com a experiência, ou seja, os tais dos “conceitos abstratos”. O objetivo dos pesquisadores era descobrir se a proximidade social – a “distância” social e emocional percebida entre “você” e “o outro” – poderia ser influenciada pelo ambiente físico (nesse caso, pelas sensações físicas de frio e calor).

No primeiro experimento, os participantes chegavam ao laboratório e eram servidos de um copo de bebida enquanto o pesquisador ostensivamente fingia fazer outra coisa. (É, o pesquisador estava enganando o participante, que na realidade não sabia nada sobre o assunto do experimento. Em Psicologia, usamos a técnica de “engodo” o tempo todo. Não conte pra ninguém que eu disse isso!). Depois, o participante preenchia um questionário que não tinha nada a ver com a pesquisa em questão, mais uma vez só para distrair o incauto sujeito de pesquisa. A medida real da coisa toda vinha de um teste feito depois disso tudo, chamado Inclusion of Other in Self (IOS), em que o participante tem que escolher uma pessoa que ele conhece e relacioná-la a ele mesmo. O resultado, que você já deve estar imaginando, foi esse mesmo: participantes que foram servidos de uma bebida QUENTE eram significativamente mais propensos a descrever uma proximidade maior com a pessoa escolhida no teste do que aqueles que foram servidos de bebidas geladas.

O segundo experimento tinha a mesma hipótese, de que a sensação de calor geraria percepção de maior proximidade social, mas dessa vez em relação a uma pessoa específica e não conhecida pelo participante. E dessa vez a temperatura manipulada foi a do ambiente em que os participantes estavam. Os caras eram convidados a ir ao laboratório e ficavam lá esperando numa sala que podia estar quente (de 22 a 24°) ou fria (de 15 a 18°). Enquanto isso, eles assistiam um filminho e respondiam um questionário, antes de preencher o mesmo teste do experimento anterior, só que desta vez, a pessoa a quem se relacionar era sempre o experimentador que os acompanhava. De novo, os resultados mostraram que os participantes na sala QUENTE declaravam maior proximidade com o experimentador do que as pessoas na sala fria.

Agora, mais um experimento, o terceiro, que tinha o objetivo de verificar o quanto a sensação de temperatura poderia influenciar em padrões cognitivos de análise, como foco em detalhes, propriedades, e relações entre objetos. A hipótese aqui era de que indivíduos com percepção de maior proximidade social (ou seja, os sujeitos da condição QUENTE) tenderiam a focar mais nas relações entre objetos do que nas percepções de formas ou categorias, devido à tendência – induzida pela temperatura – de sentir mais “dependência” do que os indivíduos na condição fria. O procedimento era o mesmo do estudo anterior, o das salas quentes e frias, mas o teste feito era diferente. A tarefa dos sujeitos era composta de 24 tentativas em que eles precisavam relacionar um conjuntos de figuras. Por exemplo, um determinado conjunto de três triângulos era apresentado primeiro e o participante, depois, tinha que escolher entre outros dois conjuntos: um igual, só que formado por quadrados, e outro diferente, só que formado de triângulos. Era mais ou menos assim:

O resultado, mais uma vez, confirmou a hipótese dos pesquisadores. Os participantes que estavam na sala QUENTE tendiam a ter um resultados no teste que mostravam mais perspectivas relacionais do que os participantes da sala fria (estes tinham mais foco nas propriedades dos conjuntos do que na relação entre os objetos que formavam os conjuntos). A interpretação é de que, ao adotar a perspectiva relacional, os participantes revelavam uma tendência a perceber a “dependência”, e portanto, a ter mais percepção de proximidade.

Interesting, hum??

O que me faz lembrar que, da próxima vez que eu conhecer um cara bacana, vou servir café bem quente ao invés de cerveja gelada.

P.S.: As imagens deste post foram propositalmente escolhidas. Há!

Estagiária no Science Blogs: eu sou!

15 de julho de 2010

Esta humilde criatura que vos bloga está agora escrevendo também no Tubo de Ensaios, o blog de “ensaios” – em todos os sentidos – do Science Blogs Brasil!!!

Além de muito feliz e bastante responsabilizada, estou muito very honrada de fazer parte da comunidade do SBBr. A galera lá é de responsa!

Vocês podem conferir os meus o todos os demais textos lá no Tubo de Ensaios. Não deixe de dar uma olhada em todos os outros blogs do condomínio SBBr, porque são do caralho!

Resposta a Diogo Mainardi

5 de julho de 2010

Reproduzo aqui a carta recebida da ABPMC (Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental), recebida ontem, em resposta à esta diarréia mental do Sr. Diogo “Falo-Porque-A-Boca-Mexe” Mainardi neste artigo da revista Veja. (Percebam como os autores, além de exímios educadores e divulgadores de ciência, são de uma educação que eu nem pensaria em ter…)

Por que Dunga não é um behaviorista

O texto intitulado “O caso do Sr. D”, publicado pelo colunista da revista Veja Diogo Mainardi, em 26 de junho de 2010, traz alguns equívocos sobre a tradição de psicologia chamada genericamente de behaviorismo ou psicologia comportamental. Mainardi faz a seguinte afirmação em seu texto: “Dunga só pode ser nosso B. F. Skinner. Ele faz com seus jogadores precisamente o mesmo que, nos primórdios do behaviorismo, B. F. Skinner fazia com os pombos e com os macacos de seu laboratório. Primeiro, prende-os numa gaiola. Segundo, isola-os de qualquer contato com o exterior. Terceiro, raciona seus alimentos. Quarto, condiciona seu comportamento administrando-lhes choques elétricos”.

Cabe lembrar que Dunga não é um behaviorista e, consequentemente, não é um especialista do comportamento. Ele é apenas alguém que algumas vezes usa desavisadamente a punição, procedimento que psicólogos comportamentais combatem veementemente.

O behaviorismo é uma filosofia que embasa a ciência empírica que estuda o comportamento dos organismos, sendo esta chamada de Análise do Comportamento ou Psicologia Comportamental. Behavioristas não criaram a punição (ou mesmo os choques elétricos) e seu fundador – B. F. Skinner – é o maior inimigo de práticas coercitivas ou punitivas. As instituições sociais criaram as punições, e não os behavioristas. Como cidadãos, observamos consternados métodos “disciplinadores” em nossas relações econômicas, governamentais, educacionais, religiosas, entre outras. Todos nós estamos bem familiarizados com as práticas de nossa cultura, que apresenta consequências punitivas para pessoas que infringem a leis, tais como a não prestação de contas ao fisco, o não cumprimento de deveres cívicos, o desempenho insatisfatório em trabalhos escolares, ou qualquer ação que seja classificada como pecado ou erro.

Os behavioristas, buscando meios de suprimir essas práticas e demonstrar seus efeitos perniciosos, pesquisam a punição com profundidade há mais de 60 anos, com robusta produção científica, denunciando veementemente as práticas coercitivas na sociedade. Mesmo em épocas de ditadura militar, analistas do comportamento não deixaram de se manifestar publicamente contra a prática da punição em nossa cultura. Maria Amélia Matos (em memória) foi uma das pessoas que o fizeram, em um artigo denominado “A ética no uso do controle aversivo”, de 1982.

Temos behavioristas no Brasil reconhecidos internacionalmente, trabalhando e buscando soluções para um vasto leque de problemas humanos, sem o uso de punição. No campo da saúde, desenvolvemos tecnologias de intervenção que melhoram a vida das pessoas que sofrem dos mais diversos distúrbios. Comumente tratamos dos efeitos maléficos provocados pela punição e ensinamos nossos clientes a como efetivamente enfrentá-la. Temos terapeutas comportamentais trabalhando com pessoas deprimidas, fóbicas, ansiosas. Trabalhamos também com crianças com problema de desenvolvimento dos mais diversos. O tratamento de maior eficácia para o autismo é reconhecidamente de orientação behaviorista.

Como cientistas também preocupados com as práticas educacionais, auxiliamos na formação de melhores professores e na educação de crianças para que essas venham a se tornar cidadãos dignos e atuantes em suas comunidades. Pessoas que saibam fazer escolhas e que não venham a causar sofrimentos a outros ou a si mesmo, usando, inadvertidamente, a mesma punição que aprenderam em ambientes sociais coercitivos.

Muitos colegas na Psicologia Comportamental trabalham em empresas, no esporte ou no planejamento de políticas sociais mais humanas. B. F. Skinner, ao seu tempo, foi um humanitário e as causas ilustradas no livro Walden II (obra bem lembrada por Mainardi) são, por assim dizer, genuinamente humanitárias. Vale lembrar que, em nenhum momento desta obra de ficção, o autor propõe uma sociedade totalitária. Pelo contrário, sua proposta de sociedade defende o respeito à individualidade e à liberdade individual. Aliás, o mesmo Skinner defende que, se a sociedade em que vivemos não usasse tanta punição, nem precisaríamos criar um termo como a “liberdade”, já que ele seria um valor comum e não um estado de exceção.

Em setembro próximo teremos o XIX Encontro Nacional da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental (ABPMC – www.abpmc.org.br), o maior fórum científico da área. Reunimos hoje mais de três mil pesquisadores, profissionais e alunos de graduação preocupados com a relevância social das nossas descobertas e com o rigor ético de nossas intervenções. Queremos, sim, construir um mundo mais digno. E os dados da ciência do comportamento vêm sendo profícuos em nos ensinar a como fazer isso. Mas isso depende da capacidade de nossos interlocutores superarem preconceitos históricos e ouvir o que temos a compartilhar à luz do atual desenvolvimento da Análise do Comportamento e do behaviorismo skinneriano. Basta uma rápida pesquisa nos anais de nossos Encontros para notar nossa preocupação com temas que afligem a sociedade e que poderão comprometer a sobrevivência de nossa cultura, entre os quais estão justamente as mais variadas formas de punição.

Sabemos que os termos técnicos da Análise do comportamento por vezes impedem a adequada compreensão de nossa ciência. Mas a ABPMC estará sempre de portas abertas para esclarecer dúvidas, dialogar com colegas cientistas de outras áreas e com qualquer interessado na compreensão de nossa abordagem.

Maria Martha Costa Hübner (Presidente da ABPMC e docente do Departamento de Psicologia Experimental da USP)

Denis Zamignani (Vice- Presidente da ABPMC e Diretor do Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento)

Roberto Alves Banaco (membro da Diretoria da ABPMC, Professor Titular da PUC-SP e coordenador acadêmico do Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento)

Paulo Roberto Abreu (mestrando do programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental da USP e associado da ABPMC)

Juliana Helena dos Santos Silvério (mestranda do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento da PUC-SP e associada da ABPMC)

Tomei a vacina… e ainda tô viva!!!

19 de maio de 2010

Olha só que lindo!! Acabei de ir tomar minha vacininha conta a influenza pandêmica – a tal da gripe H1N1 – que também atende pelo nome de gripe suína.

Juro que é o que tá escrito aí na minha carteirinha. Com a data de hoje e tudo...

Não doeu, não ficou roxo, até agora não entrei em crises convulsivas e nem morri subitamente de um mal inexplicado.

E você, já tomou?!?!?

Vai já tomar sua vacina, meu!!!

Menstruar ou não menstruar, that’s the question!

30 de abril de 2010

(Pois que eu estou devendo este post há um milênio.)

Mulher, realmente, tem cada uma que eu vou te contar, viu…

A Gisele Bündchen dá à luz em casa, dentro do banheiro (limpinho, né? Antisséptico bagarái…) e as vozes femininas aclamam. Até hoje, o moleque já deve estar indo pra faculdade, e eu não entendi qual foi a da moça: fazer graça, medo de injeção, ou só burrice mesmo. Uma coisa é fazer parto normal, com profissionais altamente treinadas e capacitadas, num ambiente preparado para isso e com autorização e recomendação médica, como é feito em alguns países europeus (com procedimentos e legislação estabelecidos e aprovados). Outra coisa, bem diferente, é o tal do “parto natural”, parto na água, parto de cócoras, parto com golfinhos (juro que isso existe!) e o escambáu. Pesquisinha rápida e não encontrei NADA nas bases de dados de Saúde que indicasse esses métodos como seguros ou eficazes. Mas enfim… esse post não tem nada a ver com parto e nem com a Gisele. *** (FAZ FAVORZINHO DE VER A ATUALIZAÇÃO LÁ EMBAIXO!)

Mas o assunto continua na esfera feminina: menstruação.

Eis que, outro dia, a mulherada do Twitter estava conversando sobre o tal do Moon Cup, um dispositivozinho de silicone, como um Tampax só que retornável, pra ser usado durante a menstruação. A vantagem do troço é que ele elimina a montanha de lixo não biodegradável que a gente acumula com os absorventes higiênicos. A Claudia Chow falou sobre eles no Eco Desenvolvimento. Eu, particularmente, prefiro acabar de uma vez por todas com todos os desperdícios provocados por Mr. Chico: não menstruar de todo. Isso se faz INDO AO MÉDICO e discutindo com ele sobre a possibilidade de se tomar anticoncepcionais de uso contínuo. As vantagens, pessoalmente, são que além de evitar o incômodo e a produção de lixo, elimina a TPM, as cólicas, pode diminuir a ocorrência de crises de enxaqueca (como foi o meu caso) e te dá 100% de aproveitamento mensal. De resto, esse resultado parece ser o esperado, estudos mostram que há uma melhorazinha nos sintomas pré-menstruais em mulheres que usam esse tipo de medicação (Coffee, Kuehl, Willis & Sulak, 2006).

Do ponto de vista fisiológico, estudos apontam que as mudanças metabólicas causadas pelos contraceptivos de uso contínuo são similares àquelas causadas pelo uso da pílula “normal”, de ciclo curto, e portanto, os possíveis efeitos colaterias são os mesmos (Machado, Fabrini, Cruz, Maia & Bastos, 2004). Comparações de eficácia entre os dois métodos também não mostraram diferenças significativas e o fato de não haver sangramento não causa nenhuma doença, disfunção ou prejuízo às pacientes (Wright & Johnson, 2008).

Pois é aí que se dá o busílis: não menstruar não causa, ao que parece, nenhum problema para as mulheres, certo? Algumas acham que não. Baseadas em observações fisiológicas, em sintomas físicos, em problemas causados pela falta de menstruação, certo?

Não.

Baseadas em argumentos como:

“Se eu não menstruar vou me sentir menos mulher.”

“A menstruação é o que marca a identidade feminina.”

“A mulher é um ser cíclico, o ciclo menstrual espelha o ciclo cósmico, as marés, a lua, blá, blá, blá, whiskas sachê…”

Sobre o tal do ciclo cósmico, não há nenhuma evidência que comprove alguma relação entre qualquer ciclo (lunar, de marés, cósmico, do campeonato paulista ou whatever) e o ciclo menstrual. O ciclo lunar pode ter alguma influência sobre o início do trabalho de parto (em gente ou em qualquer outro mamífero), mas não é determinante dele. Pode até ser que cortar o cabelo na lua crescente melhore sua aparência, mas esse efeito é tão pequeno que vale mais à pena investir numa boa duma hidratação. Ou seja, argumento inválido!

Sobre a tal da “identidade feminina”, podia-se começar por definir que raio é isso. Identidade pode ser todo um conjunto de padrões de comportamento e de sentimento que definem o que é ser “feminino”, “ser mulher”. Desde muito cedo, as meninas aprendem determinadas regras (sociais, de higiene, de relacionamento, etc.) que são reconhecidas pela comunidade em que ela vive como marcadamente “femininas”. Depois,com o tempo, essas regras se tornam tão fortemente estabelecidas no repertório de comportamentos que a própria pessoa pode descrevê-las como “parte da sua identidade”, “parte de si”, sua “personalidade” ou “é assim que eu sou”. Mas, de fato, a determinação foi social e cultural. Em poucas palavras, aprendemos a ser mulher, quase do mesmo modo que aprendemos a jogar ping-pong ou a fazer tricô. Do mesmo modo que, depois de um tempo, essas atividades tornam-se mecânicas e os movimentos quase inconscientes, os comportamentos ditos femininos os e símbolos a eles ligados tornam-se “identificados” como a feminilidade.

O ponto é esse: os comportamentos e sentimentos ligados ao menstruar e à menstruação acabam por formar uma categoria estreitamente conectada à tudo o que é feminino, e assim, fazem parte da grande “identidade feminina”. Mas, do mesmo jeito que isso tudo foi aprendido ao longo da vida de uma mulher (e dos homens também, afinal de contas, eles convivem o tempo todo com mulheres, né?), nada determina que não possa ser re-aprendido, ou substituído por outras categorias mais adequadas e até mesmo mais importantes. Do meu modesto ponto de vista, prefiro que minha identidade feminina seja baseada, por exemplo, na minha sensibilidade para acolher pessoas em sofrimento; na minha habilidade de fazer trabalhos manuais delicados e complexos; no meu senso estético e na apurada discriminação de cores; na minha capacidade de prestar atenção a diferentes estímulos ao mesmo tempo… e por aí vai.

Mas tem gente que prefere basear sua identidade feminina em sofrer de cólica e de dor de cabeça cinco dias por mês, ficar mal-humorada e se entupir de chocolate, aumentar seu risco de ter endometriose e ovário policístico, a sofrer durante horas num trabalho de parto… Percebe que parece que a identidade feminina é baseada em sofrimento? Ah, não. Obrigada. Diria minha avó: vai catar coquinho na ladeira, vai caçar sapo com bodoque, vai ver se eu tô na esquina de pijama!

Concluindo, não há nada que, psicológica ou fisiologicamente, impeça a suspensão da menstruação. Só você e seu médico é que devem tomar a decisão, baseados nas suas necessidades e limites individuais e em uma boa dose de bom senso e racionalidade. Juro que sua vida vai ficar bem mais fácil.

Referências:

Coffee, A.L., Kuhel, T.J., Willis, S., & Sulak, P.J. (2006). Oral contraceptives and premenstrual symptoms: Comparison of a 21/7 and extended regimen. American Journal of Obstetrics and Gynecology, 195(5), 1311-1319. doi:10.1016/j.ajog.2006.05.012

Machado, R.B., Fabrini, P., Maia, E., & Bastos, A.C. (2004). Clinical and metabolic aspects of the continuous use of a contraceptive association of ethinyl estradiol (30 μg) and gestodene (75 μg). Contraception , 70(5), 365-370. doi:10.1016/j.contraception.2004.06.001

Wright, K.P., & Johnson, J.V. (2008). Evaluation of extended and continuous use oral contraceptives. Therapeutics and Clinical Risk Management, 4(5), 905–911.

***ATUALIZAÇÃO:

Pra quem não entendeu (é, tem gente que não passa do primeiro parágrafo e já não entende. God knows why…) o que eu estou demonizando é o monte de “métodos alternativos” para dar à luz, quase assim uma homeopatia-ortomolecular-do-parto, sabe?

Uma coisa é o chamado Parto Domiciliar (o Homebirth europeu)  feito por profissionais formados e com indicação do médico que fez o pré natal. Esse tipo de parto é feito com a mãe na CAMA.

Outra coisa bem diferente é o parto na ÁGUA (a.k.a. parto-gisele), que não tem nenhum apoio científico e nem dos médicos. Quem duvida, favor dar uma olhadinha nos links abaixo:

Water birth – is it safe?

Neonatal Sudden Death Due to Legionella Pneumonia Associated with Water Birth in a Domestic Spa Bath

Pseudomonas Otitis Media and Bacteremia Following a Water Birth

Effects of water birth on maternal and neonatal outcomes

Water birth and infection in babies

Legionella pneumophila Pneumonia in a Newborn after Water Birth: A New Mode of Transmission