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Pesquisa com macaco-prego ajuda a entender o comportamento simbólico

11 de setembro de 2010

(Entrevista feita por Rosane Brito, do Banco de Informações da Rede Cultura de Comunicações, originalmente publicada no site Janela Cultural, em 14/12/2009.)

O Prof. Dr. Olavo Galvão coordena o Núcleo de Teoria e Pesquisa do Comportamento da Universidade Federal do Pará (UFPA). Lá, ele e sua equipe desenvolvem pesquisas com macacos na Escola Experimental de Primatas (EEP), um laboratório que estuda o comportamento simbólico de macacos-prego (Cebus sp) e faz parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Sobre Comportamento, Cognição e Ensino.

As pesquisas utilizam programas de computador criados especialmente para este fim e contam com a colaboração do Departamento de Computação da UFPA e do setor de pós-graduação em Engenharia Elétrica da mesma universidade.

O objetivo da pesquisa é compreender o comportamento humano e apoiar o tratamento de vários problemas de saúde, como retardamento mental. “Tentamos descobrir se podemos ensinar os macacos a usarem símbolos, ou seja, se a partir de associações arbitrárias que fazemos, eles começam a fazer o mesmo tipo de relação que o ser humano faz”, afirma Galvão, professor do curso de graduação em Psicologia da UFPA desde 1979.

“Se conseguirmos ensinar aos macacos relações arbitrárias que estão envolvidas no símbolo, entenderemos como o simbolismo surgiu no ser humano há milhões de anos atrás”, considera Galvão.

Confira a entrevista:

Quais as pesquisas que vêm sendo desenvolvidas neste Núcleo de Teoria e Pesquisa do Comportamento, que estão sob sua responsabilidade?
Olavo Galvão –
Nos últimos 15 anos, temos trabalhado a aprendizagem com primatas, para tentar entender qual o potencial de aprendizagem de relações simbólicas nesses animais. Sabemos que eles provavelmente não têm capacidade para linguagem, mas talvez tenham capacidade para algum rudimento de comunicação simbólica. A ideia interessa porque, se conseguirmos fazer perguntas para esses bichinhos que não falam e ensinar a eles determinadas relações arbitrárias que estão envolvidas no símbolo, estaremos provavelmente também entendendo como possivelmente o simbolismo surgiu no ser humano há milhões de anos atrás.

Que tipo de relações simbólicas são essas?
Galvão –
A definição de relação simbólica é bastante simples: você associa duas coisas não por similaridade, mas porque elas de alguma maneira foram colocadas juntas. Por exemplo, se eu falar a palavra “cozinha”, ela abrirá pra você um mundo de significados; então, essa palavra é um símbolo. Todas as palavras são símbolos, porque emulam no ouvinte uma série de coisas que existem no mundo, além de emularem outras palavras também. Ou seja, os símbolos não só se relacionam com coisas, mas também com outros símbolos. A língua é a relação entre símbolos, ao mesmo tempo em que se refere ao mundo, havendo, portanto, uma relação semântica.
Assim, o que tentamos descobrir é se podemos ensinar os macacos a usarem símbolos, ou seja, se a partir de associações arbitrárias que fazemos entre estímulos visuais ou auditivos, por exemplo, eles começam a fazer o mesmo tipo de relação que o ser humano faz. Isto é, se vendo uma figurinha, são geradas no macaco respostas de procura de outras figurinhas que não tem uma relação de semelhança, mas que foram associadas a elas na história de aprendizagem que a gente constrói nesse macaco.

Nesse tipo de relação simbólica estão envolvidas as relações afetivas também?
Galvão –
Sim, embora nós tenhamos pouco trabalho nessa área. Por enquanto, estamos ensinando um repertório básico para esses macacos, sem condições ainda de estudar os simbolismos em condições mais complexas. Essa é uma área extremamente importante. Já co-orientei um trabalho, com um professor da Universidade de São Carlos que trabalha a expressão facial dentro de um conjunto de relações simbólicas, mas foi com gente e não com macaco.
Temos feito alguns avanços. Hoje, usamos estímulos bastante complexos, inclusive pequenos vídeos, e o macaco sabe achar qual o que é igual a um outro que ele viu antes, ou o que dá continuidade ao que ele viu antes, mesmo que no meio de outros vídeos. Isso indica que no futuro, não sei quão próximo ou remoto, poderemos ver em que medida estímulos que tem um significado afetivo podem ser simbolizados por esses bichos. Assim, poderá ser analisado, por exemplo, se determinados símbolos geram reações específicas que produzem estresse ou satisfação.

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Entre os animais que são utilizados nas pesquisas existem grupos familiares? Isso importa ou não nas análises?
Galvão –
Importa muito! Do ponto de vista econômico, está ocorrendo uma situação bastante injusta com os animais. Estamos lidando com 16 bichos que estão distribuídos em cinco gaiolas. Já conseguimos formar grupos bastante pacíficos, o que é meio difícil, porque quando estão na natureza os solteiros vivem separados do macaco adulto, que fica com as fêmeas. Cada adulto forma com a fêmea um núcleo familiar e em torno desse núcleo vivem os solteiros e nós não temos condições de criar isso aqui.

E quando nascem outros animais dentro do cativeiro, isso não altera as condições do experimento? Eles são absorvidos pelo grupo?
Galvão –
Há uma única fêmea e nós estamos aprendendo a fazer a introdução de um bichinho novo nessas condições de cativeiro, o que não é muito simples. Descobrimos da pior maneira que o pai pode ser um perigo para o filho, porque ele matou o filhote. Agora já tem um outro filhote com 6 meses e estamos lidando de outra forma.

Os resultados dessas pesquisas – em especial no que se refere às relações simbólicas – irão contribuir para os humanos? Ou seja, esses resultados podem ser transpostos para os humanos necessariamente?
Galvão –
Essa é a ideia. Para conhecer os primatas, o argumento não é meramente ecológico, embora este seja importante para entender o comportamento deles e o equilíbrio ecológico. Mesmo assim, ele está relacionado à necessidade humana de conhecer. Mas nós temos uma razão mais próxima para estudar isso: partimos do ponto que, em termos evolutivos, os nossos antepassados são também os antepassados desses primatas. Em algum momento, há cerca de cinco milhões de anos, houve a separação e alguns primatas resolveram ser bípedes e vieram várias espécies até chegar no ser humano. Os outros primatas, da América, chamados de primatas do Novo Mundo, permaneceram nas árvores. Mas, hoje, o conhecimento de alguns mostrou que eles têm um percentual relativamente alto de vida no solo.
O pessoal da USP está estudando isso e já demonstrou que esses macacos andam em dois pés uma boa parte do tempo, dependendo do ambiente em que eles vivem. Assim, os pesquisadores daquela universidade estão estudando os macacos do cerrado e da caatinga, onde, diferentemente da Amazônia e de outras áreas florestais, o tempo no solo é muito maior. Aqueles macacos já têm utilizado as patas dianteiras, ou mãos, de uma forma bastante complexa, já tendo sido inclusive detectado que a maneira como eles resolvem seus problemas difere da de outros animais da mesma espécie.

O ambiente, então, é decisivo para o desenvolvimento das espécies?
Galvão –
Sim, além do prazo, pois, se há disponibilidade de uma ferramenta, eles a usam. Por exemplo, os macacos que vivem onde há pedra quebram coco, como já vem sendo bastante divulgado na mídia. Isso foi primeiramente identificado nos chimpanzés, pelos cientistas, apesar de que o caboclo brasileiro já sabe disso há muito mais tempo.

Por que foi escolhido o macaco-prego para as pesquisas deste Núcleo? Ele é diferente dos outros?
Galvão –
No início deste laboratório, que foi com o professor José Carlos Fontes, começamos a trabalhar com algumas espécies: o macaco da noite, o barrigudo, o prego e o ateles. Tínhamos, na época, muita dificuldade financeira, pois estávamos começando, e manter macacos é algo complicado. Quando voltei do pós-doutorado, em 1992, passei a coordenar o laboratório e aí já tinham acabado o macaco da noite e o barrigudo. Optei, então, por me concentrar no macaco-prego, que é um bicho mais resistente e que vive tranquilamente em cativeiro.  A ideia era focalizar e facilitar o investimento.
Nessa época, voltei dos Estados Unidos e um professor de lá, da Universidade de Massachusetts, que trabalhava com pessoas com retardamento mental, estava interessado em pesquisas que fossem similares com as pessoas que apresentam dificuldade de comunicação e sem linguagem, sendo que com primatas. Quando ele conheceu nosso trabalho, viu que utilizávamos uma metodologia muito semelhante à que ele usava lá, com pessoas que não se comunicavam. Até hoje essa colaboração está em vigor, incluindo a Universidade de São Carlos e a Universidade Nacional de Brasília (UNB).
Hoje, fazemos parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia e conseguimos aprovar um instituto, que a professora Deise de Souza, da Universidade Federal de São Carlos coordena, e somos o braço “animal” desse instituto, pois os demais trabalham com humanos, embora o método seja o mesmo. A ideia é como se pode produzir repertórios que em pessoas normais nem se consegue ver como eles são ensinados, porque são aprendidos diretamente no ambiente normal. Pessoas com problemas de comunicação ou qualquer outro tipo de problema físico, entretanto, precisam de apoio especial para desenvolver esses repertórios, como os que tem problemas de audição, que quando colocam o implante coclear precisam aprender a reconhecer os impulsos elétricos como equivalentes aos impulsos sonoros normais que uma pessoa com ouvido intacto ouve. Há também pessoas com atraso de desenvolvimento, ou com fracasso escolar, que embora seja um problema menor precisam ser ajudadas para ser devolvidas à escola.

Os resultados até o momento apontam que há de fato semelhanças entre os que trabalham com humanos e este grupo da UFPA, que trabalha com macacos?
Galvão –
Sim. Algumas dificuldades típicas de pessoas com retardamento mental, nós estamos encontrando também nos macacos. Os estudos em vários laboratórios demonstram que as pessoas com esse tipo de problema tendem a perseverar, mas, se uma determinada ação foi bem sucedida em uma situação, isso não quer dizer que ela será bem sucedida em qualquer situação. Mas essas pessoas tendem a reproduzir a ação, independentemente da situação. Ou seja, a ligação de um modo de agir com o contexto é fraca em pessoas com autismo ou com retardamento mental. E nós temos encontrado esse problema no macaco-prego que, embora não seja idêntico, tem uma similaridade.
O macaco, por exemplo, demora a parar de escolher a fruta trocada – por exemplo, a banana por maçã – que ao ser escolhida dá direito a uma pelota de açúcar como recompensa. Uma criança mesmo muito pequena faz essa comutação com facilidade, mas as pessoas com problemas tendem a repetir o comportamento.
A ideia não é transformar uma pessoa com retardamento mental em uma pessoa normal, mas de dar a ela a oportunidade de aprender esse comportamento de mudança das escolhas conforme há mudanças nas oportunidades. Por exemplo, se uma pessoa que possui problema ao falar “bom dia” recebe um sorriso, ela poderá repetir o “bom dia”, em qualquer outro horário do dia ou da noite. O evento antecedente, ou o pré-comportamento, que permite identificar, antes de falar, se é manhã ou não, é fraca em algumas pessoas com problemas no desenvolvimento.

Macaco Louis realizando uma tarefa de pareamento por identidade, no computador com tela sensível ao toque.

Como são desenvolvidos os softwares – programas – com os quais vocês trabalham aqui no Núcleo? A equipe é multidisciplinar?
Galvão –
Felizmente, nós já atingimos esse estágio. Inicialmente, contratávamos um engenheiro e havia muita dificuldade para ele entender o que queríamos, para desenvolver o software e para este ficar bom. Hoje, nós estamos com duas colaborações interessantes, uma com o departamento de computação, através do professor Dione Monteiro, e outra com o professor Manoel Ribeiro, da pós-graduação em Engenharia Elétrica, que é do laboratório de realidade virtual. Já temos, então, alguns trabalhos, como o de escolha de frutas pelos macacos, que foi uma dissertação de mestrado orientada por esse mesmo professor, em que eu fiz parte da banca. Provavelmente, esse produto vai produzir resultados para a sociedade. A partir desse trabalho será gerado um joguinho infantil.
O projeto do professor Dione Monteiro é ambicioso, porque ele quer montar um office, um conjunto de programas integrados, que possa ser utilizado também pelos profissionais do Hospital Bettina Ferro, da UFPA, que trabalham com pessoas que tem problemas de audição e com os que tem implante coclear. É como uma bateria de testes que serve não apenas para testar, mas também para ensinar algumas relações para as pessoas que precisam adquirir um repertório básico, que cresceram sem ter a oportunidade de ter acesso, porque foram sempre surdas, ou porque ficaram surdas após algum tempo. A estimulação do implante coclear, por exemplo, pode só gerar dor porque a estimulação é feita diretamente no nervo, por isso é importante que logo que ocorrer o implante ele possa virar um elemento do sistema de comunicação.

Como este Núcleo tem participado e avalia a discussão atual sobre a utilização de animais em pesquisas, muito condenada por vários grupos defensores dos animais e do meio ambiente?
Galvão –
A legislação é novíssima e, finalmente, passou a Lei Arouca que veio para regulamentar a pesquisa com animais e, mesmo assim, ela é muito genérica. As universidades estão discutindo o problema da pesquisa com animais e da qualidade de vida desses seres. Recentemente, recebi um professor da Universidade do Amazonas que está organizando um encontro para debater sobre os biotérios e os animais de pesquisa.
Do ponto de vista amplo, isso é muito discutível. A interface com a normatização e a legislação, acho que até felizmente, tem sido lenta, porque não adianta fazer uma legislação específica que vá travar, em vez de liberalizar. Mas existem alguns acordos internacionais em vigor e todo mundo, de certa forma, só publica trabalhos com animais se estiver de acordo com as declarações universais de proteção aos direitos dos animais. Mas evidentemente a sociedade quer mais.
Aqui mesmo no nosso laboratório, gradualmente, serão construídas novas instalações para os animais, o que é uma estrutura muito cara. Conseguimos agora financiamento que permitirá ficar entre o desejável e o atual. Temos hoje seis gaiolas com 2,5m de aresta e será construída uma que terá 4m de altura e 20m de comprimento. Uma das paredes será de vidro, o que vai humanizar muito mais a residência dos animais, e a travessia deles para o laboratório será reduzida a uma porta. Os macacos irão transitar por conta própria, o que é adequado para o tipo de pesquisa realizada aqui neste laboratório.
Um outro aspecto interessante dessa discussão sobre a ética com animais de laboratório é que você precisa tratar tanto mais humanamente o animal quanto mais ele é próximo do ser humano na escala biológica, o que parece um contra-senso. Por exemplo, o pesquisador só pode utilizar um chimpanzé se ele provar que não pode usar um animal mais simples. Acho isso estranho porque parece que esses outros animais tem menos direitos. De certa forma, a nossa ética é à nossa imagem e semelhança…Talvez precisemos de uma nova geração para ter uma compreensão melhor da gradação em que somos afetados pela maneira como tratamos os animais.

Há algum acordo de cooperação deste Núcleo com o Centro de Primatas do Pará?
Galvão –
Sim. Sempre houve um acordo de cooperação. Quando tenho um sujeito que não será mais utilizado, eles são os primeiros a ser consultados para ver se querem o animal, assim como quando precisamos de novos sujeitos pedimos primeiro para eles e depois para o Ibama. Também já fizemos pesquisas lá dentro e eles nos abriram as portas. Hoje, trabalhamos com a mesma veterinária de lá do Evandro Chagas – Klena Sarges -, que está fazendo o doutorado no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, em articulação com a Unifesp, e pesquisa com células-tronco no Mal de Parkinson. O nosso laboratório fará parte dessa pesquisa.

Em relação ao Ibama, como se dá a vinculação com este Núcleo, em função dos animais utilizados nas pesquisas?
Galvão –
Há um tempo atrás, o Ibama colaborou muito com este laboratório, porque repassava para nós animais apreendidos, que não queria soltar no mato porque, tendo sido criados em cativeiro desde cedo, esses animais não resistiriam e morreriam. Isso aconteceu até que chegamos no nosso limite de lotação. Agora, com esse financiamento, teremos uma nova residência grande e, provavelmente, poderemos contar com o Ibama, e com o próprio Centro de Primatas, para os novos 16 macacos que iremos ter.

Quanto à fiscalização, o Ibama mantém alguma normatização que um centro de pesquisa precisa cumprir?
Galvão –
Indiretamente sim. Eles exigem que tenhamos assistência técnica veterinária e que as condições de alojamento, de limpeza e de alimentação estejam de acordo com as normas. Fizeram a fiscalização inicial e viram que temos um bom criatório. A partir daí, o controle é indireto, com relatórios anuais, mas de vez em quando técnicos do Ibama aparecem para fazer a fiscalização local.

***NOTA: não pedi permissão à autora, nem ao Portal Cultura, para a reprodução dessa entrevista. Portanto, se alguém se sentir ofendido ou prejudicado, é só entrar em contato, ok?!?!

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