Skip to content

O termômetro das relações sociais

15 de julho de 2010

IJzerman, H., & Semin, G. (2009). The Thermometer of Social Relations: Mapping Social Proximity on Temperature Psychological Science, 20 (10), 1214-1220 DOI: 10.1111/j.1467-9280.2009.02434.x

“Esse cara é quente!”

“O show tava meio morninho.”

“Ele me deu uma gelada…”

Quente, morno e gelado são palavras que usamos para descrever a temperatura de coisas e também servem de metáforas que expressam diferentes julgamentos sobre o quão desejável, agradável ou próximo as situações ou pessoas são e estão de nós . É um dos muitos exemplos em que vemos conceitos abstratos sendo formados com base em experiências concretas.

No artigo “The thermometer of social relations: mapping social proximity on temperature”, os caras armaram experimentos muito espertos para verificar a relação entre a experiência concreta (neste caso usaram as sensações de calor e de frio) e os sentimentos e abstrações que apareceram conjuntamente com a experiência, ou seja, os tais dos “conceitos abstratos”. O objetivo dos pesquisadores era descobrir se a proximidade social – a “distância” social e emocional percebida entre “você” e “o outro” – poderia ser influenciada pelo ambiente físico (nesse caso, pelas sensações físicas de frio e calor).

No primeiro experimento, os participantes chegavam ao laboratório e eram servidos de um copo de bebida enquanto o pesquisador ostensivamente fingia fazer outra coisa. (É, o pesquisador estava enganando o participante, que na realidade não sabia nada sobre o assunto do experimento. Em Psicologia, usamos a técnica de “engodo” o tempo todo. Não conte pra ninguém que eu disse isso!). Depois, o participante preenchia um questionário que não tinha nada a ver com a pesquisa em questão, mais uma vez só para distrair o incauto sujeito de pesquisa. A medida real da coisa toda vinha de um teste feito depois disso tudo, chamado Inclusion of Other in Self (IOS), em que o participante tem que escolher uma pessoa que ele conhece e relacioná-la a ele mesmo. O resultado, que você já deve estar imaginando, foi esse mesmo: participantes que foram servidos de uma bebida QUENTE eram significativamente mais propensos a descrever uma proximidade maior com a pessoa escolhida no teste do que aqueles que foram servidos de bebidas geladas.

O segundo experimento tinha a mesma hipótese, de que a sensação de calor geraria percepção de maior proximidade social, mas dessa vez em relação a uma pessoa específica e não conhecida pelo participante. E dessa vez a temperatura manipulada foi a do ambiente em que os participantes estavam. Os caras eram convidados a ir ao laboratório e ficavam lá esperando numa sala que podia estar quente (de 22 a 24°) ou fria (de 15 a 18°). Enquanto isso, eles assistiam um filminho e respondiam um questionário, antes de preencher o mesmo teste do experimento anterior, só que desta vez, a pessoa a quem se relacionar era sempre o experimentador que os acompanhava. De novo, os resultados mostraram que os participantes na sala QUENTE declaravam maior proximidade com o experimentador do que as pessoas na sala fria.

Agora, mais um experimento, o terceiro, que tinha o objetivo de verificar o quanto a sensação de temperatura poderia influenciar em padrões cognitivos de análise, como foco em detalhes, propriedades, e relações entre objetos. A hipótese aqui era de que indivíduos com percepção de maior proximidade social (ou seja, os sujeitos da condição QUENTE) tenderiam a focar mais nas relações entre objetos do que nas percepções de formas ou categorias, devido à tendência – induzida pela temperatura – de sentir mais “dependência” do que os indivíduos na condição fria. O procedimento era o mesmo do estudo anterior, o das salas quentes e frias, mas o teste feito era diferente. A tarefa dos sujeitos era composta de 24 tentativas em que eles precisavam relacionar um conjuntos de figuras. Por exemplo, um determinado conjunto de três triângulos era apresentado primeiro e o participante, depois, tinha que escolher entre outros dois conjuntos: um igual, só que formado por quadrados, e outro diferente, só que formado de triângulos. Era mais ou menos assim:

O resultado, mais uma vez, confirmou a hipótese dos pesquisadores. Os participantes que estavam na sala QUENTE tendiam a ter um resultados no teste que mostravam mais perspectivas relacionais do que os participantes da sala fria (estes tinham mais foco nas propriedades dos conjuntos do que na relação entre os objetos que formavam os conjuntos). A interpretação é de que, ao adotar a perspectiva relacional, os participantes revelavam uma tendência a perceber a “dependência”, e portanto, a ter mais percepção de proximidade.

Interesting, hum??

O que me faz lembrar que, da próxima vez que eu conhecer um cara bacana, vou servir café bem quente ao invés de cerveja gelada.

P.S.: As imagens deste post foram propositalmente escolhidas. Há!

5 Comentários leave one →
  1. Paulo permalink
    15 de julho de 2010 16:29

    Adorei, Ana! Muito informativo o seu artigo e, ao mesmo tempo, descontraído e interessante…

  2. 16 de julho de 2010 09:22

    Muito interessante. Será que isso diz alguma coisa sobre as características atribuídas aos habitantes do país? P.e., a noção geral é que os povos de regiões tropicais são mais amistosos, os de países mais frios, mais distantes: “latinos calientes” e “frieza germânica”.

    E somando com aquele experimento em que pessoas em cadeiras mais duras ou mais macias negociam de modo diferentes parecem ser ajustados à ideia da emoção como marcador somático defendida por Damásio.

    []s,

    Roberto Takata

    • Aninha permalink*
      22 de julho de 2010 13:05

      Meniiino… não tinha feito essa relação, mas faz todo sentido, heim?!?!

  3. 13 de agosto de 2010 21:29

    Muito bom, parabéns pelo blog e pelo post!

  4. bields84 permalink
    14 de agosto de 2010 01:39

    aninha! dê pinga! é quente e deixa o cara tonto ! AUEioAUEH

    bjos! lega o post!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: