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Pesquisa Mundial Sobre Cores: nomeação de cores revela “temas” universais e suas diversidades inter-linguísticas

28 de janeiro de 2010

Todo mundo já se pôs a pensar, pelo menos cinco minutos na vida, sobre a experiência visual alheia. Ou eu é que sou meio esquisita. Mas acho a pergunta “será que o amarelo que ele vê é o mesmo amarelo que eu vejo?” com certeza já foi feita muitas vezes, com pequenas modificações, por muita gente.

Não estou falando dos processos fisiológicos envolvidos: em condições normais, todo mundo tem um determinado conjunto de células especializadas nos olhos, que quando sensibilizadas por determinadas “faixas” do espectro luminoso, mandam sinais específicos para o córtex visual, que os decodifica e interpreta. Até aí, tudo bem, todo mundo passa por isso. Mas daí pra frente é que a porca torce o rabo, e o que seria do azul se todos gostassem do amarelo. Acontece que o que chamamos de “experiência visual” é algo difícil de determinar, justamente por sua natureza SUBJETIVA, isto é, porque o que cada um de nós percebe é única e exclusivamente acessível a sua própria consciência, de modo que eu só posso entender a sua experiência baseada no que aprendi com minhas experiências. Para fins de comunicação e entendimento entre as pessoas, vá lá que a coisa ainda funciona até certo nível, mas isso de modo algum significa que as experiências sejam as mesmas e que dois indivíduos têm a mesma percepção sobre o mesmo objeto. Como diz o filósofo Thomas Nagel no ensaio “What is like to be a bat?”, esse caráter subjetivo da experiência não pode ser capturado por nenhum instrumento conhecido de medição cerebral e nem pode ser reduzido à análise de estados mentais.

Cores. Intrigante, hum?!?!

Mas será invariável e determinadamente assim mesmo? Uma pesquisa mundial feita desde os anos 70 com pessoas falantes de idiomas não-escritos de culturas pré industriais (e por isso pouco afetadas pela cultura de massa) encontrou indícios fortes de que pode haver, pelo menos, 11 grandes “agrupamentos” universais usados por culturas diversas ao redor do mundo para classificar sistemas de cores. E o mais intrigante é que esses temas ocorrem em lugares diferentes, com pequenas variações individuais, em línguas completamente diferentes, indicando que os processos lingüísticos usados para nomear as cores devem ter evoluído de maneira similar em todas as línguas.

O World Color Survey compilou uma base de dados imensa sobre o tema, e os pequisadores Delwin T. Lindsey e Angela M. Brown publicaram esse artigo que eu estou resenhando, chamado “World Color Survey: color naming reveals universal motifs and their within-language diversity”, na PNAS de novembro do ano passado, comparando a formação histórica dos termos usados para nomear cores em mais de uma centena línguas ao redor do mundo. O objetivo dos pesquisadores era confirmar a hipótese de que existe um conjunto limitado de categorias universais do qual todas as linguagens derivam suas nomeações para cores e que, além disso, as linguagens “evoluem” adicionando nomes de cores em uma seqüência relativamente fixa.

A sacada dos caras está no método usado para a análise dessa montanha de dados: ao invés de examinar as palavras para nomeação de cores dentro de uma língua específica, os pesquisadores voltaram suas verificações para o nível das variações individuais, ou o que eles chamam de “idioletos”, que é a variedade pessoal de linguagem de um falante individual. Sim, por increça que parível cada um de nós tem seu próprio idioleto, sua maneira singular de falar que varia discretamente da linguagem usada por todas as outras pessoas falantes do mesmo idioma. Com essa estratégia metodológica, foram verificados os termos para nomeação de cores de 2616 indivíduos falantes das 110 línguas estudadas, em resposta a um conjunto standart de 330 cores, apresentados um por vez, numa ordem pseudorandômica fixa, para cada um dos participantes. Só de pensar na quantidade de tratamentos estatísticos, meu cérebro entra em parafuso.

Pois essas análises revelaram oito agrupamentos estatisticamente significantes de padrões cromáticos X nomes de cores: vermelho, verde, azul, “grue” (aquela mistura meio indiscriminada entre verde e azul – do inglês, green e blue), amarelo-laranja, marrom, rosa e roxo. Mais três agrupamentos chamados “acromáticos” foram feitos reunindo as “pontas” da escala: preto (para os tons mais escuros), branco (para os tons mais claros) e cinza (para os tons intermediários que excluíam branco e preto). Os resultados levaram à interpretação de que, para cada grupamento, há, entre as línguas estudadas, uma variação pequena – de três a seis – de temas para nomear as cores, fortalecendo a hipótese de que há categorias universais para a nomeação de cores. Há agrupamentos com maior concordância (ou seja, menos temas) entre as nomeações, como os agrupamentos acromáticos e o grue. De modo geral, apenas sete idiomas (6,4% do total) mostraram temas únicos, e a média foi de três temas para cada agrupamento entre todos os idiomas.

Em (A) é mostrada a tabela de cores usada pelo WCS e em (B) os 11 agrupamentos feitos à partir dos resultados encontrados na pesquisa. (Retirado de Linsey & Bronw, 2009)

Os autores concluem, disso tudo, que:

Our analyses indicate that the color terms used by the WCS informants are drawn on a universal glossary of 11 color terms, and that the particular suite of color terms used by each informant is drawn on a set of about three to six universal color-naming  systems, which we call motifs.

Tradução: Nossas análises indicam que os termos para cores usados pelos informantes da WCS estão restritos a um glossário universal de 11 termos para cores, e que esse conjunto particular de termos para cores usados por cada informante está restrito num conjunto de cerca de seis sistemas de nomeação universais, que nós chamamos de temas.

Ou seja, embora provenientes de culturas e sistemas idiomáticos completamente diferentes, os participantes do WCS mostraram pouca variabilidade na nomeação das cores, o que seria o esperado numa amostragem tão grande. Por si só, essa descoberta já é fantástica e, nas palavras dos próprios autores, um tantinho “contra intuitiva”. Porém a outra hipótese colocada no início do artigo (de que a evolução dos termos de nomeação para cores seria relativamente fixa) ficou um pouco sumida na descrição dos resultados. Apenas na discussão geral, é mencionado que:

Variations in within-language diversity across the WCS provide a way to examine color term evolution by using synchronic data. Our simplex analysis of these variations indicates that color lexicons change over time and do so in a reasonably orderly fashion.

Tradução: Variações na diversidade inter-linguística entre os participantes do WCS provêm um meio de examinar a evolução dos termos para cores pelo uso de dos sincrônicos. Nossas análises simplex dessas variações indicam que os léxicos para cores mudam ao longo do tempo e que isso ocorre de uma maneira razoavelmente ordenada.

Sinceramente, não entendi isso dos resultados. Mas que o resto é bacanudo pra caramba, isso é… Né, não?

Lindsey, D.T. & Brown, A.M. (2009). World Color Survey: color naming reveals universal motifs and their within-language diversity. Proceedings of the National Academy Of Sciences of the United States of America, 106 (47). 19785-19790. doi_10.1073_pnas.0910981106


5 Comentários leave one →
  1. 31 de janeiro de 2010 13:05

    Hum…isso seria mais uma das características humanas que não sofre só influência da cultura, mas que tem aquele famoso componente genético vindo da evolução também né…As famosas características universais humanas.

    Ou me enganei??rs

    • Aninha permalink*
      31 de janeiro de 2010 13:13

      Oi Felipe!
      Acho que a maneira como a luz sensibiliza o olho, e como isso é decodificado pelo cérebro sim, é uma característica determinada geneticamente. O que o artigo coloca em questão é que a “experiência” subjetiva pode ser altamente influenciada pela cultura… O que parece ser o mais interessante é que, diferentemente do que se pensava – que cada cultura, ou idioma, desenvolveria seus próprios processos para “direcionar” essa experiência, como a nomeação dessas cores – os resultados apontam que esses processos parecem ser quase os mesmos em diferentes lugares. Não dá pra dizer se isso é geneticamente determinado, ou se os ambientes sociais são tão similares a ponto de selecionarem os mesmos mecanismos…

  2. 28 de fevereiro de 2010 11:08

    Interessante isso. Me lembra aquele teste das pirâmides coloridas de Pfister, e os significados das combinações de cores.

  3. 14 de setembro de 2011 18:37

    quen e qui gosta de cor

    porra quen e qui ta miovino

  4. 31 de julho de 2012 11:17

    eu to ti ovino eu gosto hashuashuas mas serio legal essa porra.

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