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Relações perigosas

8 de outubro de 2009

A divulgação, pela imprensa, dos resultados de pesquisas científicas é a maneira mais expressiva e importante de manter o público informado das descobertas feitas pelos cientistas. Mas algumas vezes os jornalistas de Ciência – responsáveis por cobrir as notícias referentes ao assunto – pesam a mão na hora de fazer as manchetes, de narrar os experimentos e, principalmente, de inferir conclusões a partir dos resultados apresentados pelos cientistas.

Veja que coisa mais singela essa manchete da Folha Online:

Manchete

Pááára tudo!

As informações sobre os resultados da pesquisa estão corretamente descritos no texto do jornal. Mas, quando o jornalista tenta descrever O QUE SIGNIFICAM ESSES RESULTADOS, a porca torce o rabo. O estudo usa um método de análise que costumamos chamar de correlacional. O nome é mais ou menos auto-explicativo: por meio de um monte de contas complicadas que não vêm ao caso, um programa de computador cruza dois tipos de informação para verificar como se comportam em conjunto. Os testes estatísticos usados dizem tanto se há ou não relação entre as duas medidas, quanto qual a “direção” dessa relação – que pode ser positiva, quando as duas medidas crescem ou decrescem ao mesmo tempo; ou negativa, isto é, se uma medida sempre aumenta a outra diminui sempre.

Correlação entre o aumento da temperatura global e o número de piratas. O aquecimento global está causando o aparecimento de piratas? (Gráfico reproduzido do Implicit None - clique para ir ao blog)

Correlação entre a média da temperatura global e o número de piratas. O aquecimento global está causando o aparecimento de piratas? (Gráfico reproduzido do Implicit None - clique para ir ao blog)

Mas, nem sempre o fato de duas coisas acontecerem AO MESMO TEMPO indica que uma delas CAUSOU a outra. E, principalmente, não indica quem causou quem. Só podemos predizer com algum grau de certeza que, quando a coisa “A” acontece, a coisa “B” também irá acontecer, ou vice-versa. Esta é a pegada que constantemente atormenta os jornalistas de Ciência. Dizer que duas coisas estão correlacionadas não implica em que estas duas coisas sejam uma causa da outra. É uma falácia (um argumento que parece verdade mas é inválido) conhecida dos filósofos e cientistas, enunciada pela máxima “cum hoc ergo propter hoc”, que em latim quer dizer “com isto, portanto causa disto”.

O consumo excessivo de doces pode causar cáries, e a Ciência descobriu que é porque o açúcar dos doces serve de alimento para as bactérias presentes na boca, e a digestão delas gera produtos que fazem com que o esmalte dos dentes se enfraqueça, deixando o caminho livre para a corrosão dos tecidos. O consumo de açúcar pode causar obesidade infantil, porque o excesso de calorias que não são utilizadas pelas atividades do organismo se acumula em forma de gordura corporal, e o açúcar é um alimento muito calórico. E assim por diante. Quando dizemos que o excesso de doces consumidos pela criança CAUSA aumento de agressividade quando essa criança crescer, somos obrigados a mostrar evidências de COMO esse fenômeno ocorre. E não foi o caso da pesquisa em questão. Aliás, não era nem o foco da pesquisa em questão.

Estudos com metodologia correlacional são importantes para indicar possíveis fenômenos que, ocorrendo conjuntamente, podem ser usados um para predizer a presença do outro. E claro, para eleger possíveis candidatos a causas, mas nunca para determinar se um fenômeno é ou não causa de outro. Ao deparar-se com dois fenômenos correlacionados, os cientistas podem enxergar uma direção a seguir para verificar as causas de alguma coisa, e para isso levantam hipóteses a serem confirmadas ou refutadas por outras metodologias de pesquisa.

Os próprios autores da pesquisa levantaram essas hipóteses alegando que as crianças podem ter consumido mais doces porque suas mães usavam esse tipo de recompensa para aplacar suas birras, transformado-as em adultos que não sabiam lidar com atrasos na gratificação. Pessoas que não sabem lidar com frustração tendem a agir impulsivamente e isso leva muitas vezes a comportamento agressivo. Eles só esqueceram-se da hipótese contrária: crianças que já eram impulsivas consumiam mais doces porque suas mães não sabiam lidar com a constância das birras e reclamações violentas.

E aí? Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?

Referência do artigo sobre doces e agressividade:

Moore, S.C., Carter, L.M., & van Goosen, S.H.M. (2009). Confectionery consumption in childhood and adult violence. The British Journal of Psychiatry, 195. 366-367. 10.1192/bjp.bp.108.061820

Agradecimentos: ao Luiz Bento do Discutindo Ecologia que baixou o artigo pra eu poder escrever o post, e que deve estar curtindo uma bela lua de mel neste momento.

2 Comentários leave one →
  1. 9 de outubro de 2009 21:00

    Que post excelente!
    Infelizmente esses equívocos de relação causa-efeito são frequentes demais na mídia; valeu pela ótima descrição super didática do problema!

    • Aninha permalink*
      13 de outubro de 2009 17:59

      Que bom que a galera está curtindo!! Valeu o comentário!!!

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