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Começando a falar de linguagem

3 de setembro de 2009

Pra quem praticamente nasceu falando, parece muito fácil. Mas se fosse mesmo, a linguagem provavelmente seria um atributo distribuído com mais justiça entre os membros do reino animal. Há estudiosos do tema que acham que justamente a capacidade de simbolizar, de produzir nomes para as coisas e de concatenar os nomes das coisas em frases que façam sentido é o que diferencia a espécie humana das outras. Embora algumas teorias linguísticas sugiram que a espécie humana tem um complexo sistema neural que de algum modo vem pré-fabricado, pronto para aprender a falar, essa teoria de que nasceríamos com um “órgão da fala” nunca obteve nenhum suporte experimental para comprová-la. (Perdeu, Chomsky!)

Graças a Darwin, hoje em dia temos uma visão um tiquinho menos antropo-ego-cêntrica da natureza, e as teorias modernas sobre o desenvolvimento da linguagem tendem a explicar seu surgimento na espécie humana baseadas no argumento do aumento de complexidade ao longo da linha evolutiva. Sabemos que a maioria dos animais sociais, até mesmo os mais simples (como formigas e abelhas) desenvolveram sistemas de comunicação para manter a organização de suas colônias. Mamíferos superiores – os primatas, por exemplo – chegam a ensinar às gerações mais novas alguns truques específicos daquele grupo, como por exemplo, lavar batatas para tirar a terra e melhorar seu gosto. Seu, da batata, não da terra. Um tipo de cultura rudimentar passada de geração em geração por meio de sinais comunicativos. Assim, sistemas simples de comunicação foram evoluindo de acordo com a necessidade que as espécies teriam de transmitir informações entre seus membros, e conforme a capacidade orgânica disponível naquele organismo (desenvolvimento cerebral, capacidade vocal, etc).

A macaca Imo aprendeu a lavar batatas na água do mar, e ensinou os outros membros de seu grupo a fazer o mesmo.

A macaca Imo aprendeu a lavar batatas na água do mar, e ensinou os outros membros de seu grupo a fazer o mesmo.

Nessa linha de raciocínio, se quisermos começar a entender como a linguagem se desenvolve, do que ela é feita, como podemos melhorar a linguagem de pessoas que têm problemas com ela, podemos usar como objeto de pesquisa animais com um sistema mais simples do que o sistema simbólico (ou seja, a linguagem) humano. Pra começo de conversa – trocadilho mode on – há que se saber quais dessas outras espécies poderiam apresentar algumas das pecinhas que formam o imenso e confuso quebra-cabeças da linguagem. Temos algumas pistas evolutivas de que primatas superiores (orangotangos, gorilas e chimpanzés) provavelmente estejam mais próximos de nós nesse quesito do que outros animais como gatos ou periquitos. Há um vasto campo de pesquisas sobre a linguagem de mamíferos aquáticos como baleias e golfinhos indicando que eles também são bem espertos, chegando a dar nomes próprios aos companheiros de grupo.

Parece que esse é um ponto importante para o surgimento da linguagem: que haja algum grau de relacionamento social entre os membros da espécie, de modo que um possa entender a informação que o outro tenta transmitir. Para que um sistema de sinais seja compreendido, de alguma forma o animal deve ter companheirinhos que o compreendam. Parece óbvio, mas não é, é preciso que cada membro do grupo possa distinguir um cara de outro, dentro do grupo, além de saber quando outro animal não faz parte de seu grupo. Algo do tipo “João é anão e José não tem pé! Mas esse cara não é da minha turma!”. Não deve ser tarefa fácil para abelhas operárias, capivaras, macacos ruivos ou bebês chineses, pois todos os membros do grupo são muito parecidos entre si!

Também é preciso que o sinal comunicativo – um grito, uma expressão facial, um gesto, determinada posição corporal, etc – de alguma forma “signifique” aquilo que o cidadão quer comunicar. Essa parte é fácil de entender: quando seu cachorro arrasta a vasilha de comida pela casa, você compreende que ele quer que você coloque comida dentro dela. Mas tanto o cão quanto você devem saber que o “sinal” não é a comida, apesar dele “significar” comida. Traduzindo: quando o arrastar de tigela é seguido repetidamente pelo aparecimento da comida dentro da tigela, o cão aprende que o “significado” de arrastar a tigela é “aparecer comida”. E você aprende que seu cãozinho só vai parar de aporrinhar com a maldita tigela se você colocar comida dentro dela.

“Comida de cachorro” e “arrastar a tigela” não compartilham muitas propriedades físicas, não são nem de perto parecidos, mas estão na mesma categoria, ou seja, na presença do dono, arrastar a tigela vai fazer aparecer comida. O cachorro aprende que se o dono não estiver em casa, não adianta fazer barulho. Ele aprende a distinguir o “dono que dá comida” dos demais membros da família, e provavelmente não vai arrastar a tigela pra quem nunca o alimenta. O dono aprende que se o cachorro não arrasta a tigela, ele não quer que a comida apareça nela. Há vários tipos de categorias, algumas mais complexas do que outras. Podemos pensar em uma categoria de “cachorros” que englobaria poodles, pit bulls, chiuauas, boxers, filas e pugs. Todos são diferentes entre si, mas todos são cachorros. Podemos fazer hierarquias dentro dessa categoria de cachorros, teríamos “cachorros pentelhos” incluindo chiuauas, poodles e pittbuls, e “cachorros babões”, com filas, boxers e pugs. Também poderíamos ter uma categoria de “sinais que produzem comida”, onde um cão facilmente incluiria “arrastar a tigela”, “fazer cara de coitado”, “ganir”, “abanar a patinha” e “babar debaixo da mesa”. Essa categoria só funcionaria quando o dono que dá comida ao cão está presente, então podemos relacionar os “sinais que produzem comida” a um estímulo que faz a categoria funcionar.

Feed me, please!

Feed me, please!

A habilidade de formar categorias é a base para o desenvolvimento de algum tipo de comunicação entre indivíduos. As relações entre os membros dentro de uma categoria e entre os membros de uma categoria e outros estímulos pode ser tão complexa quanto o necessário para a complexidade da linguagem. Aqui está a pegada técnica de estudar a formação de categorias em animais não-humanos: espera-se que as categorias sejam mais simples quanto mais simples o sistema de sinais e de comunicação desses animais. Dessa forma, podemos começar a entender o quê, realmente, torna a linguagem humana tão especial em sua complexidade. Mas para entender algo complexo, precisamos partir de coisas menos complexas. Ora, direis, por que raios alguém que quer entender de linguagem vai estudar leões marinhos? Começamos a vislumbrar algo interessante…

One Comment leave one →
  1. 5 de outubro de 2009 14:49

    kkkkkkkki locoura

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