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Migrando definitivamente para o Science Blogs Brasil

29 de abril de 2011

Leitores amigos,

O Divã de Einstein está migrando definitivamente para o Science Blogs Brasil!!! Estou repostando os artigos do WP, e já comecei a escrever e postar coisas novas na nova casa…

Agora, moramos num confortável condomínio, cheio de vizinhos amigos, e com esperanças de que coisas boas e interessantes aconteçam sempre!

Este endereço do WP vai ficar no ar ainda mais alguns dias, para que a migração dos posts seja completada, mas de agora em diante, atenderemos aqui:

Clique para ir ao novo endereço dO Divã de Einstein no SBBr

Viés cognitivo: você é obtuso e nem sabia…

17 de dezembro de 2010

Well…

Também não é assim, de certo modo. O caso é que o mundo (e as coisas do mundo) é grande e complexo, cheio de situações novas nas quais temos que nos comportar de maneira adequada e inteligente, geralmente sem experiência prévia. O que fazer nessas horas? Agir como costumamos agir em ocasiões similares, mas não iguais, e esperar que tudo dê certo parece uma boa estratégia. É nessa situação em que a gente costuma fazer julgamentos errados e, em algumas vezes desastrados.

O problema é que, como na maioria das vezes a estratégia dá certo, tendemos a repetí-la sempre em situações similares (mas não iguais, lembre-se). É como se formássemos grandes categorias-guarda-chuva de respostas a determinadas situações, que são usadas para adequarmos o nosso comportamento rapidamente, quando a situação exige. Essas categorias são os tais dos “viéses cognitivos”, ou seja, padrões de comportamentos sob controle de determinadas generalizações de controle de estímulos. O exemplo mais clássico de viés cognitivo é o comportamento preconceituoso. Algumas categorias de estímulos – por exemplo, mulheres bonitas e loiras – determinam aslgumas maneiras de pensar e comportamentos – “ah, lá vem a loira-burra“, ou o comportamento de explicar uma coisa nos mínimos detalhes didáticos para uma mulher loira e bonita, só porque você “acha” que ela não irá entender o que você diz.

Há vários outros viéses cognitivos, e believe me, a gente se comporta de acordo com esses padrões com frequencia muito maior do que a gente mesmo poderia acreditar. O que, em si, já é um viés cognitivo… Enfim. Formas obtusas de pensamento, algumas vezes, são apenas falta de controle sobre as respostas generalizadas.

Bradley Wray, um professor americano, fez uma musiquinha descrevendo alguns dos viéses cognitivos mais comuns, que é uma pérola… escutem (e leiam a legenda!) com atenção – e sem viés.

Yo! Dirty Behaviorists!!!

14 de novembro de 2010

Well… quem me conhece sabe que eu não sou muito dada a certos fundamentalismos evangelizadores e que eu acho muita graça em algumas manifestações de apoio incondicional, quase religioso, a qualquer teoria psicológica. (Quem estava na cerimônia de abertura da ABA  Internacional de Campinas em 2004, sabe do que eu tô falando, né?)

Tipo: isso!

Tenho convicção de que ninguém que se autodenomine CIENTISTA pode dizer que sua ciência é “o caminho, a verdade e a vida”.

Isto posto…

O povo do Dissemination of Behavior Analysis Special Interest Group of the Association for Behavior Analysis International – afh! – colocou no ar um rapizinho behaviorista que é muito bacana… Ri muito com a letra que, apesar de conter alguns erros conceituais, é muito boa. Se você não achar os erros, coloquei lá embaixo pra não dar spoiller…

Para escutar, clique aqui: “Got Your Data

E a letra, é a seguinte:

Hmm.. hmm…

ODB…

Old Dirty Behaviorist…

Gonna show you how we do this…

With science… science… science…

Yo lay this track now!

You say you got a problem, you need a fix

Tired of these snake oil salesman’s bag of tricks

I don’t have a problem with their intentions

But I do have a problem with their methods

You say you want something that is tried and true

Well, baby, I got just the thing to you

What am I talking about? Listen to this

It’s called Applied Behavior Analysis

It’s a science of human behavior

And no, I don’t think that I’m a savior

And you know that I wouldn’t try to move you

Without having all the facts so I can prove you

Now that you’ve heard where I’m coming from

I’ll show you my credentials so you know I’m not a bum

If you want a outcome that’s really gonna matter

Girl you better show me that data!

Chorus:

Hey, dirty

Baby, I got your data

Don’t you worry, I said hey!

Baby I got your data

2X

I’m collecting baseline data so I can see

If the IV is really affecting th DV

You want to manipulate so you replicate

But ya can’t intervene untill ya gotta a steady state

Just graph if you wanna show results to me

Cause statistics don’t mean a damn thing to me

I’m the ODB as you can see

And a table full of numbers don’t read so easily

I don’t want to hear how customers feel

Testimonials don’t replace the data that is real

I want to hear about results that really matter

So show me some courtesy and show me some data

Peer-review uh-huu, yes all day everyday

Recognize I’m skeptic and I’m waiting

All of you schiesters and had better just scatter

Hmmp you know my name now show me my data!

Chorus

Dirty: sing it! Sing it, girls!

Just shake it right now!

Somebody else: if Dirty wants his data

I think you all should give him his data!

Science… Science… Science…

Science… Science… Science…

Science… Science… Science…

Science… Science… Science…

Science… Science… Science…

Science… Science… Science…

People coming up with crap every day of the week

Telling you that it’ll help this kid start to speak

But empirical support is really kinda weak

And you’re wondering why the future’s looking so bleak

You better ask’em where they got it published

Or else you know it’s just a bunch of rubbish

They’ll say something bout not having time or money

But they wouldn’t give permission to anybody

Now they say that you should try it

Cause it probably wouldn’t hurt

But if takes time from something that’s working

That is time that you can’t get back!

People learning how to tell all the fiction from fact

Try to sell me something that I know is just a crap

Pseudoscience is gonna get punished to the back

ABA everyday cause the research is stacked!

Now show me my data!

Chorus

***Jogo dos Sete (nem tantos!) Erros:

1. Não. Nós não achamos que estatística não significa nada. Apenas que a média de respostas de vários organismos não pode dizer muita coisa sobre a probabilidade de resposta de UM organismo em particular. SÓ ISSO. Estatística bem aplicada, no lugar certo, e com interpretação conscienciosa é uma puta ferramenta científica.

2. WE DO CARE about the consumer’s feelings!!! Os ossos do Velhinho deram um triplo twist carpado na tumba com essa! Todos os fenômenos comportamentais são da nossa conta. Aí incluídos pensamentos, sentimentos, sonhos e demais estados internos e/ou privados.

3. Relatos verbais podem não substituir dados observacionais ou experimentais, mas eles não são inúteis de todo. São apenas mais um tipo de dado, e são confiáveis ou não na medida em que podem ser replicados dadas as mesmas circunstâncias, e que possuam suporte de outros dados provenientes de outros métodos.

Memorial à Ivar Lovaas: Como nasce – e cresce – uma ciência

3 de novembro de 2010

(Publicado originalmente no Tubo de Ensaios, no Science Blogs Brasil)

Este post é uma tradução, autorizada pelo autor, de dois comentários à nota de falecimento do Professor Ivar Lovaas, pioneiro da Análise do Comportamento Aplicada e um dos maiores pesquisadores e difusores do Método ABA para o tratamento de pessoas com autismo e outros déficits cognitivos.

Ole Ivar Lovaas nasceu na Noruega, mas desenvolveu seus trabalhos na UCLA (University of California in Los Angeles), onde fundou um centro para tratamento de autistas: o The Lovaas Institute. Foi um dos maiores pesquisadores do autismo e responsável pelo desenvolvimento de um dos métodos mais bem sucedidos e recomendados (inclusive pela Associação Médica dos EUA) para a reinserção social e adaptação de pessoas com autismo. O texto a seguir é de autoria do Professor James T. Todd, do Departamento de Psicologia da Eastern Michigan University, e foi publicado originalmente em resposta a um comentário de uma leitora no Autism Blog, de Lisa Jo Rudy, no dia 4 de agosto deste ano – dois dias depois da morte de Lovaas. Republico aqui, traduzido, o que acho a mais concisa e objetiva explicação de como as descobertas experimentais de vários cientistas se acumulam e se completam para dar suporte a tecnologias que melhoram a vida das pessoas.

“O Behaviorismo, como uma filosofia específica da ciência, foi inicialmente desenvolvido por John B. Watson nas primeiras décadas do século XX. O principal objetivo de Watson era tratar o comportamento objetivamente, usando as técnicas da ciência natural. O comportamento dos organismos é o resultado natural de sua história genética e interacional. Uma abordagem completa do comportamento pode ser encontrada na análise completa desses fatores. Watson nunca desenvolveu completamente muitos aspectos críticos do seu Behaviorismo, apenas apontou a necessidade de uma maior sofisticação na abordagem, antes de entrar para a carreira publicitária. A devoção de Watson ao condicionamento pavloviano e a rejeição qualificada da Lei do Efeito, de Edward Thorndike (que descrevia os efeitos de recompensas e punições) deixou sua formulação sem os princípios comportamentais necessários para dar conta, minimamente, dos comportamentos mais complexos. Os equívocos sobre determinados aspectos de sua teoria metafísica, especialmente na análise do comportamento privado – como o pensamento – levaram muitas pessoas a ver o seu Behaviorismo como irremediavelmente mecanicista e superficial, apesar de haver maior profundidade do que é aparente em uma primeira leitura. Há muitos outros nomes associados ao Behaviorismo precoce, tais como Albert Weiss e Knight Dunlap, cujas idéias foram, de certa forma, mais completamente desenvolvida do que as de Watson. Faltava-lhes a verve retórica de Watson, e suas opiniões agora vêm até nós, em grande parte, como informações históricas incidentais. Ao considerar as contribuições de Watson para a Psicologia, é melhor ignorar totalmente o parágrafo obrigatório e superficial que vemos nos capítulos iniciais dos livros de introdução à Psicologia, e mesmo em Histórias da Psicologia de nível um pouco superior. Ao contrário do que essas obras podem levar a crer, suas reais contribuições ajudaram a estabelecer a Psicologia como uma disciplina acadêmica distinta da Filosofia e da Biologia, e a tornar a observação objetiva do comportamento o dado padrão em toda a Psicologia (mesmo em áreas como a psicologia cognitiva, que não estendem a objetividade para a teorização), ajudando no estabelecimento do condicionamento pavloviano como base dos tratamentos para transtornos de ansiedade.

Começando em 1920, e continuando até a sua morte em 1990, BF Skinner ampliou e elaborou as formulações de Watson, legando-nos o “Behaviorismo Radical” que nós associamos a ele até hoje. (“Radical”, aqui, significa “raiz” ou “fundamental”, e não “extremo”.) Basicamente, a abordagem de Skinner abrange todos os comportamentos, incluindo a parte dos comportamentos que é privada ao indivíduo, tais como sentir e sonhar, e trata-os como eventos reais e objetivos existentes no tempo e no espaço. (Sim, pensar, sentir e sonhar estão dentro do escopo do sistema de Skinner, não importa o que os textos introdutórios dizem). Nesse sentido, Skinner concorda com Watson: o comportamento é o que surge quando histórias genéticas e ambientais de um organismo se encontram com os eventos atuais. A Análise do Comportamento consiste em encontrar, na história do organismo, os eventos que se relacionam ordenadamente com o comportamento presente. Skinner, é claro, enfatizou a importância do “condicionamento operante”, essencialmente uma versão muito mais sofisticada da Lei do Efeito de Thorndike. Tanto o condicionamento pavloviano, quanto o condicionamento operante estavam, então, disponíveis para descrever uma quantidade surpreendente de comportamentos dos organismos, que podiam ser previstos e controlados com uma precisão tipicamente associada com as hard sciences. A enorme variabilidade nos dados dos comportamentos, previamente proveniente de estudos com labirintos e outras técnicas, foi transformada em curvas muito suaves e regulares, demonstrando a realidade das “leis do comportamento”. Hoje em dia, nós associamos o trabalho de Skinner com ratos e pombos, especialmente na área de “esquemas de reforçamento”, em que diferentes padrões de recompensas produzem importantes efeitos comportamentais. Mas, a partir desta formulação, dezenas de milhares de experiências sobre os princípios básicos do comportamento vieram à luz. A contingência de três termos de Skinner, popularmente concebida e simplificada em “antecedente-comportamento-consequência”, é uma ferramenta analítica de extraordinário poder, especialmente em sua versão mais tecnicamente sofisticada. As variáveis responsáveis por praticamente qualquer episódio especificamente definido de comportamento podem ser descobertas através da análise. Também é uma maneira altamente eficaz de estabelecer comportamentos novos: reforçe o comportamento requerido, e você tem grande probabilidade de ter mais do mesmo. (Às vezes, é mais fácil falar do que fazer!) Claro, não podemos esquecer as contribuições culturais de Skinner, implorando-nos para perceber – com livros como o tão incompreendido Beyond Freedom and Dignity (1971), e o essencial Ciência e Comportamento Humano (1953) – que muitos dos problemas que enfrentamos hoje, como sociedade, advêm do nosso próprio comportamento. Para resolver esses problemas é necessária uma ciência do comportamento efetiva. Para uma descrição mais completa do pensamento e das teorias de Skinner, eu recomendo começar pelo livro Ciência e Comportamento Humano, disponível no site da Fundação BF Skinner. E, para uma visão mais técnica, embora ainda amplamente acessível, ler os artigos da Edição Especial da American Psychologist, de novembro de 1992. A leitura do “best of” de Skinner, recolhidos no livro Cumulative Record seria um excelente passo seguinte.

Quanto à Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis, ou a conhecida sigla ABA), Lovaas não a inventou. Pode-se argumentar que Skinner a inventou, ao menos conceitualmente, em seu romance de 1948, Walden Two. A contribuição especial de Lovaas foi mostrar que é possível, com a aplicação integral e intensiva de princípios da teoria da aprendizagem, tratar efetivamente, e de forma eficaz, o autismo como um todo, em um número considerável de indivíduos, ou ao menos levar melhorias substanciais para aqueles que não alcançam totalmente os benefícios do tratamento. Por “eficaz” e “substanciais” entende-se que cerca de metade das crianças submetidas às intervenções ABA obtêm desempenho dentro dos limites “normais” em certos testes padrão. Em termos práticos, isso significa que essas crianças são capazes de frequentar a escola sem apoio especial. Antes que Lovaas fizesse isso, já havia provas científicas suficientes que mostravam que a ABA podia ser utilizada efetivamente para aspectos específicos de autismo.

A ABA ainda era bastante jovem quando Lovaas usou o método pela primeira vez para tentar criar um tratamento global para o autismo, na década de 1960. Mas, antes de Lovaas, começando na década de 1950, o trabalho reconhecido como ABA foi aplicado a todos os tipos de problemas de comportamento, tipicamente em pessoas com deficiência de desenvolvimento e esquizofrenia e geralmente em laboratórios e instituições. Grandes programas dedicados à Análise Comportamental Aplicada, como o Departamento de Desenvolvimento Humano e Vida Familiar (Department of Human Development and Family Life, HDFL) da Universidade do Kansas, foram estabelecidos na década de 1960. O HDFL é hoje o Departamento de Ciências do Comportamento Aplicadas. O Journal of Applied Behavior Analysis foi fundado em 1968, quase 20 anos antes de Lovaas publicar seu artigo seminal, em 1987, “Tratamento comportamental e funcionamento educacional e intelectual normal em jovens crianças autistas” (Behavioral Treatment and Normal Educational and Intellectual Functioning in Young Autistic Children), no Journal of Consulting and Clinical Psychology. Assim, ao contrário de praticamente todos os “tratamentos” para o autismo de que temos ouvido falar, ABA não é um novo “método” esperando alguém para fazer um estudo e descobrir se ele funciona em tudo. Intervenções ABA para problemas específicos de comportamento foram baseadas diretamente em princípios descobertos e comprovados em laboratórios comportamentais. Intervenções ABA abrangentes são construídas à partir de tratamentos mais direcionados, que já demonstraram eficácia. ABA não está esperando para entrar em todas as revistas científicas, ela vem de todas as revistas científicas. A pergunta típica não é o quanto a intervenção irá funcionar – esta é a parte fácil – mas se esta pode ser efetivamente aplicada no mundo real, com todas as complicações que o mundo real traz.

Mas, antes de Lovaas, não havia sido estabelecida ainda a possibilidade de efetivamente tratar o autismo como um todo através da criação de um programa abrangente de intervenções ABA. Agora, o termo ABA é muitas vezes incompreendido como significando apenas o que Lovaas fez – sua “terapia de tentativa discreta”, por exemplo – mas “ABA” realmente significa muito mais. O que é ABA? Citando livremente algo que eu escrevi para uma outra finalidade, podemos definir como ABA:

O uso sistemático de princípios de aprendizagem cientificamente estabelecidos, técnicas de condicionamento comportamental e modificações ambientais relacionadas para criar terapias baseadas em evidências, comprovadamente eficazes e humanas, com o objetivo principal de estabelecer e reforçar habilidades de vida independente, socialmente funcionais e importantes.

Na prática, uma análise comportamental aplicada utiliza técnicas baseadas na teoria da aprendizagem para modelar comportamentos novos e importantes em indivíduos com determinados excessos ou déficits comportamentais. Intervenções realizadas por analistas do comportamento geralmente incluem os seguintes componentes:

• Uma análise baseada em dados funcionais das condições responsáveis pelo comportamento problema.

• Objetivos e metas de tratamento específicos e verificáveis.

• Um plano bem definido usando os princípios da teoria de reforço para atender as metas e objetivos.

• Uma coleta de dados contínua para mostrar que a intervenção foi realmente a responsável pelos ganhos do tratamento.

• Um plano para garantir a generalização e a manutenção dos ganhos do tratamento.

• Medidas para garantir a validade social dos objetivos e metas do tratamento, e para assegurar que todos os envolvidos possam contribuir de forma substancial e construtiva para a melhoria de suas habilidades ao máximo de sua capacidade.

Eliminar a automutilação e ensinar habilidades acadêmicas para crianças com autismo, restabelecer habilidades de vida independente em pessoas com lesões cerebrais, treinar hábitos de higiene adequados em crianças com enurese, melhorar o atendimento médico a pessoas doentes, estabelecer hábitos de estudo eficazes em crianças em situação de risco, reduzir os hábitos repetitivos como a mania de roer unhas e a tricotilomania e reforçar o comportamento social adequado em pessoas com déficits de habilidades sociais são ilustrativos, mas não esgotam a gama de problemas de comportamento endereçados aos analistas do comportamento aplicados. Há, é claro, e sopa de letrinhas das coisas que realmente são – fundamentalmente – ABA, ou derivadas dela: Treino por Tentativas Discretas (Discrete Trial Training, TDT), Treino de Resposta Pivotal (Pivotal Response Training, PRT), Intervenção Comportamental Precoce Intensiva (Early Intensive Behavioral Intervention, EIBI), Modelo Denver, Apoio Comportamental Positivo (Positive Behavior Support, PBS) e muitos outros. Tem incomodado, ultimamente, os constantes esforços por parte dos promotores de algumas dessas coisas em tentar passá-las como não sendo ABA, ou como não sendo em grande parte baseadas em ABA, mas como algo completamente diferente. Olhe sob o capô: se é de alguma forma eficaz com autismo, você irá encontrar algum tipo de gestão de contingências em funcionamento.

Nomes associados aos esforços iniciais em construir a ABA incluem Paul Fuller, Nathan Azrin, Teodoro Ayllon, Donald Baer, Sidney Bijou, Todd Risley, Jack Michael, Montrose Wolf, Charles Ferster, Kurt Salzinger, Israel Goldiamond, e muitos outros. Aqueles que conhecem um pouco da história recordarão o primeiro esforço sistemático para aplicar ABA ao autismo por Mont Wolf, Todd Risley e Hayden Mees: “Aplicação de princípios do condicionamento operante à problemas comportamentais de uma criança autista” (Application of Operant Conditioning Principles to the Behaviour Problems of an Autistic Child) publicado em março de 1964 no Behaviour Research and Therapy. Eu acho que um bom lugar para encontrar uma visão abrangente da moderna ABA é no excelente livro de Cooper, Heward e Heron, Análise Aplicada do Comportamento (Applied Behavior Analysis). Alguns elementos da ABA também estão contidos na referida edição da American Psychologist, de novembro 1992. No entanto a ABA é um campo enorme, com uma história que remonta, se incluirmos a pesquisa básica, a bem mais de 100 anos. Assim, é impossível para um único livro para captar tudo.

A perda de Lovaas, em si, é uma ocasião de grande tristeza para os seus amigos e colegas. Mas suas contribuições vivem em suas obras e nas obras de seus alunos. Aqueles dentre nós que vieram depois aspiram imitar seu modelo e, assim, talvez, contribuir com uma fração do que ele fez para ajudar pessoas com autismo a conseguir muito mais independência e dignidade do que era possível antes do trabalho de Lovaas mostrar como poderia ser feito.”

Transcrição do Dispersando, Episódio 2: Generalizações

28 de setembro de 2010

Mais um episódio do Dispersando, o podcast do Science Blogs Brasil, transcrito pela equipe Samir, Anderson e esta que vos bloga!

Segundo o texto do Dispersando:

Para este segundo episódio, os blogueiros do ScienceBlogs Brasil Cláudia Chow (Ecodesenvolvimento) e Carlos Hotta (Brontossauros em meu jardim) se juntam a Fernanda (Bala Mágica), Rafael (RNAm) e Igor S. (42.) com participação especial de Kentaro Mori (100nexos) para falar sobre generalizações.

A Mídia generaliza, o público generaliza, mas fazer Ciência não é generalizar?

Quando generalizações são boas? E quando correm o risco de serem simplistas?

O aúdio original está lá na página do Dispersando: aqui.

E a transcrição em pdf, AQUI!

Enjoy.

Transcrição do Dispersando Especial: Butantan

15 de setembro de 2010

No dia 24 de maio de 2010, o blogue Dispersando do Science Blogs Brasil (SbBr) publicou um podcast especial sobre o incêndio no Instituto Butantan. Por sugestão de membros do SbBr (na verdade, da Fer – do Bala Mágica), optamos por passar esta edição na frente das outras, devido ao seu conteúdo de extrema relevância.

Baixe a versão transcrita em pdf AQUI!

A recepção da última (que também foi a primeira) transcrição foi muito positiva. Tanto pelos amigos e conhecidos do Twitter, quanto pelos membros do SbBr. Agradeçemos a eles pela confiança, apoio e incentivos que nos tem dado nesse projeto!

Antes de chegar ao que interessa, uma nota importante. Nesta transcrição, a equipe teve o prazer de receber um novo voluntário, o químico Anderson Arndt (@anderarndt)! Obrigado pela ajuda e dedicação, Anderson!

A equipe responsável pela transcrição foi: Anderson Arndt (@anderarndt) e Samir Elian (@samir_elian). Se você tiver interesse em participar, pergunte a eles como!

Do blogue oficial DISPERSANDO:

Episódio extraordinário sobre o incêndio no Instituto Butantan com a participação dos blogueiros Eduardo Bessa (Ciencia à Bessa), Luiz Bento (Discutindo Ecologia) e Reinaldo Lopes (Chapéu, Chicote e Carbono-14) que discutem, mediados por Igor Santos (42.), as causas, os estragos e a importância do que foi perdido.

Confira a versão em áudio do postcast.

***NOTA: Texto e versão original deste post: @Samir_Elian, do Meio de Cultura.

Pesquisa com macaco-prego ajuda a entender o comportamento simbólico

11 de setembro de 2010

(Entrevista feita por Rosane Brito, do Banco de Informações da Rede Cultura de Comunicações, originalmente publicada no site Janela Cultural, em 14/12/2009.)

O Prof. Dr. Olavo Galvão coordena o Núcleo de Teoria e Pesquisa do Comportamento da Universidade Federal do Pará (UFPA). Lá, ele e sua equipe desenvolvem pesquisas com macacos na Escola Experimental de Primatas (EEP), um laboratório que estuda o comportamento simbólico de macacos-prego (Cebus sp) e faz parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Sobre Comportamento, Cognição e Ensino.

As pesquisas utilizam programas de computador criados especialmente para este fim e contam com a colaboração do Departamento de Computação da UFPA e do setor de pós-graduação em Engenharia Elétrica da mesma universidade.

O objetivo da pesquisa é compreender o comportamento humano e apoiar o tratamento de vários problemas de saúde, como retardamento mental. “Tentamos descobrir se podemos ensinar os macacos a usarem símbolos, ou seja, se a partir de associações arbitrárias que fazemos, eles começam a fazer o mesmo tipo de relação que o ser humano faz”, afirma Galvão, professor do curso de graduação em Psicologia da UFPA desde 1979.

“Se conseguirmos ensinar aos macacos relações arbitrárias que estão envolvidas no símbolo, entenderemos como o simbolismo surgiu no ser humano há milhões de anos atrás”, considera Galvão.

Confira a entrevista:

Quais as pesquisas que vêm sendo desenvolvidas neste Núcleo de Teoria e Pesquisa do Comportamento, que estão sob sua responsabilidade?
Olavo Galvão –
Nos últimos 15 anos, temos trabalhado a aprendizagem com primatas, para tentar entender qual o potencial de aprendizagem de relações simbólicas nesses animais. Sabemos que eles provavelmente não têm capacidade para linguagem, mas talvez tenham capacidade para algum rudimento de comunicação simbólica. A ideia interessa porque, se conseguirmos fazer perguntas para esses bichinhos que não falam e ensinar a eles determinadas relações arbitrárias que estão envolvidas no símbolo, estaremos provavelmente também entendendo como possivelmente o simbolismo surgiu no ser humano há milhões de anos atrás.

Que tipo de relações simbólicas são essas?
Galvão –
A definição de relação simbólica é bastante simples: você associa duas coisas não por similaridade, mas porque elas de alguma maneira foram colocadas juntas. Por exemplo, se eu falar a palavra “cozinha”, ela abrirá pra você um mundo de significados; então, essa palavra é um símbolo. Todas as palavras são símbolos, porque emulam no ouvinte uma série de coisas que existem no mundo, além de emularem outras palavras também. Ou seja, os símbolos não só se relacionam com coisas, mas também com outros símbolos. A língua é a relação entre símbolos, ao mesmo tempo em que se refere ao mundo, havendo, portanto, uma relação semântica.
Assim, o que tentamos descobrir é se podemos ensinar os macacos a usarem símbolos, ou seja, se a partir de associações arbitrárias que fazemos entre estímulos visuais ou auditivos, por exemplo, eles começam a fazer o mesmo tipo de relação que o ser humano faz. Isto é, se vendo uma figurinha, são geradas no macaco respostas de procura de outras figurinhas que não tem uma relação de semelhança, mas que foram associadas a elas na história de aprendizagem que a gente constrói nesse macaco.

Nesse tipo de relação simbólica estão envolvidas as relações afetivas também?
Galvão –
Sim, embora nós tenhamos pouco trabalho nessa área. Por enquanto, estamos ensinando um repertório básico para esses macacos, sem condições ainda de estudar os simbolismos em condições mais complexas. Essa é uma área extremamente importante. Já co-orientei um trabalho, com um professor da Universidade de São Carlos que trabalha a expressão facial dentro de um conjunto de relações simbólicas, mas foi com gente e não com macaco.
Temos feito alguns avanços. Hoje, usamos estímulos bastante complexos, inclusive pequenos vídeos, e o macaco sabe achar qual o que é igual a um outro que ele viu antes, ou o que dá continuidade ao que ele viu antes, mesmo que no meio de outros vídeos. Isso indica que no futuro, não sei quão próximo ou remoto, poderemos ver em que medida estímulos que tem um significado afetivo podem ser simbolizados por esses bichos. Assim, poderá ser analisado, por exemplo, se determinados símbolos geram reações específicas que produzem estresse ou satisfação.

www.portalcultura.com.br

Entre os animais que são utilizados nas pesquisas existem grupos familiares? Isso importa ou não nas análises?
Galvão -
Importa muito! Do ponto de vista econômico, está ocorrendo uma situação bastante injusta com os animais. Estamos lidando com 16 bichos que estão distribuídos em cinco gaiolas. Já conseguimos formar grupos bastante pacíficos, o que é meio difícil, porque quando estão na natureza os solteiros vivem separados do macaco adulto, que fica com as fêmeas. Cada adulto forma com a fêmea um núcleo familiar e em torno desse núcleo vivem os solteiros e nós não temos condições de criar isso aqui.

E quando nascem outros animais dentro do cativeiro, isso não altera as condições do experimento? Eles são absorvidos pelo grupo?
Galvão –
Há uma única fêmea e nós estamos aprendendo a fazer a introdução de um bichinho novo nessas condições de cativeiro, o que não é muito simples. Descobrimos da pior maneira que o pai pode ser um perigo para o filho, porque ele matou o filhote. Agora já tem um outro filhote com 6 meses e estamos lidando de outra forma.

Os resultados dessas pesquisas – em especial no que se refere às relações simbólicas – irão contribuir para os humanos? Ou seja, esses resultados podem ser transpostos para os humanos necessariamente?
Galvão –
Essa é a ideia. Para conhecer os primatas, o argumento não é meramente ecológico, embora este seja importante para entender o comportamento deles e o equilíbrio ecológico. Mesmo assim, ele está relacionado à necessidade humana de conhecer. Mas nós temos uma razão mais próxima para estudar isso: partimos do ponto que, em termos evolutivos, os nossos antepassados são também os antepassados desses primatas. Em algum momento, há cerca de cinco milhões de anos, houve a separação e alguns primatas resolveram ser bípedes e vieram várias espécies até chegar no ser humano. Os outros primatas, da América, chamados de primatas do Novo Mundo, permaneceram nas árvores. Mas, hoje, o conhecimento de alguns mostrou que eles têm um percentual relativamente alto de vida no solo.
O pessoal da USP está estudando isso e já demonstrou que esses macacos andam em dois pés uma boa parte do tempo, dependendo do ambiente em que eles vivem. Assim, os pesquisadores daquela universidade estão estudando os macacos do cerrado e da caatinga, onde, diferentemente da Amazônia e de outras áreas florestais, o tempo no solo é muito maior. Aqueles macacos já têm utilizado as patas dianteiras, ou mãos, de uma forma bastante complexa, já tendo sido inclusive detectado que a maneira como eles resolvem seus problemas difere da de outros animais da mesma espécie.

O ambiente, então, é decisivo para o desenvolvimento das espécies?
Galvão –
Sim, além do prazo, pois, se há disponibilidade de uma ferramenta, eles a usam. Por exemplo, os macacos que vivem onde há pedra quebram coco, como já vem sendo bastante divulgado na mídia. Isso foi primeiramente identificado nos chimpanzés, pelos cientistas, apesar de que o caboclo brasileiro já sabe disso há muito mais tempo.

Por que foi escolhido o macaco-prego para as pesquisas deste Núcleo? Ele é diferente dos outros?
Galvão –
No início deste laboratório, que foi com o professor José Carlos Fontes, começamos a trabalhar com algumas espécies: o macaco da noite, o barrigudo, o prego e o ateles. Tínhamos, na época, muita dificuldade financeira, pois estávamos começando, e manter macacos é algo complicado. Quando voltei do pós-doutorado, em 1992, passei a coordenar o laboratório e aí já tinham acabado o macaco da noite e o barrigudo. Optei, então, por me concentrar no macaco-prego, que é um bicho mais resistente e que vive tranquilamente em cativeiro.  A ideia era focalizar e facilitar o investimento.
Nessa época, voltei dos Estados Unidos e um professor de lá, da Universidade de Massachusetts, que trabalhava com pessoas com retardamento mental, estava interessado em pesquisas que fossem similares com as pessoas que apresentam dificuldade de comunicação e sem linguagem, sendo que com primatas. Quando ele conheceu nosso trabalho, viu que utilizávamos uma metodologia muito semelhante à que ele usava lá, com pessoas que não se comunicavam. Até hoje essa colaboração está em vigor, incluindo a Universidade de São Carlos e a Universidade Nacional de Brasília (UNB).
Hoje, fazemos parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia e conseguimos aprovar um instituto, que a professora Deise de Souza, da Universidade Federal de São Carlos coordena, e somos o braço “animal” desse instituto, pois os demais trabalham com humanos, embora o método seja o mesmo. A ideia é como se pode produzir repertórios que em pessoas normais nem se consegue ver como eles são ensinados, porque são aprendidos diretamente no ambiente normal. Pessoas com problemas de comunicação ou qualquer outro tipo de problema físico, entretanto, precisam de apoio especial para desenvolver esses repertórios, como os que tem problemas de audição, que quando colocam o implante coclear precisam aprender a reconhecer os impulsos elétricos como equivalentes aos impulsos sonoros normais que uma pessoa com ouvido intacto ouve. Há também pessoas com atraso de desenvolvimento, ou com fracasso escolar, que embora seja um problema menor precisam ser ajudadas para ser devolvidas à escola.

Os resultados até o momento apontam que há de fato semelhanças entre os que trabalham com humanos e este grupo da UFPA, que trabalha com macacos?
Galvão -
Sim. Algumas dificuldades típicas de pessoas com retardamento mental, nós estamos encontrando também nos macacos. Os estudos em vários laboratórios demonstram que as pessoas com esse tipo de problema tendem a perseverar, mas, se uma determinada ação foi bem sucedida em uma situação, isso não quer dizer que ela será bem sucedida em qualquer situação. Mas essas pessoas tendem a reproduzir a ação, independentemente da situação. Ou seja, a ligação de um modo de agir com o contexto é fraca em pessoas com autismo ou com retardamento mental. E nós temos encontrado esse problema no macaco-prego que, embora não seja idêntico, tem uma similaridade.
O macaco, por exemplo, demora a parar de escolher a fruta trocada – por exemplo, a banana por maçã – que ao ser escolhida dá direito a uma pelota de açúcar como recompensa. Uma criança mesmo muito pequena faz essa comutação com facilidade, mas as pessoas com problemas tendem a repetir o comportamento.
A ideia não é transformar uma pessoa com retardamento mental em uma pessoa normal, mas de dar a ela a oportunidade de aprender esse comportamento de mudança das escolhas conforme há mudanças nas oportunidades. Por exemplo, se uma pessoa que possui problema ao falar “bom dia” recebe um sorriso, ela poderá repetir o “bom dia”, em qualquer outro horário do dia ou da noite. O evento antecedente, ou o pré-comportamento, que permite identificar, antes de falar, se é manhã ou não, é fraca em algumas pessoas com problemas no desenvolvimento.

Macaco Louis realizando uma tarefa de pareamento por identidade, no computador com tela sensível ao toque.

Como são desenvolvidos os softwares – programas – com os quais vocês trabalham aqui no Núcleo? A equipe é multidisciplinar?
Galvão –
Felizmente, nós já atingimos esse estágio. Inicialmente, contratávamos um engenheiro e havia muita dificuldade para ele entender o que queríamos, para desenvolver o software e para este ficar bom. Hoje, nós estamos com duas colaborações interessantes, uma com o departamento de computação, através do professor Dione Monteiro, e outra com o professor Manoel Ribeiro, da pós-graduação em Engenharia Elétrica, que é do laboratório de realidade virtual. Já temos, então, alguns trabalhos, como o de escolha de frutas pelos macacos, que foi uma dissertação de mestrado orientada por esse mesmo professor, em que eu fiz parte da banca. Provavelmente, esse produto vai produzir resultados para a sociedade. A partir desse trabalho será gerado um joguinho infantil.
O projeto do professor Dione Monteiro é ambicioso, porque ele quer montar um office, um conjunto de programas integrados, que possa ser utilizado também pelos profissionais do Hospital Bettina Ferro, da UFPA, que trabalham com pessoas que tem problemas de audição e com os que tem implante coclear. É como uma bateria de testes que serve não apenas para testar, mas também para ensinar algumas relações para as pessoas que precisam adquirir um repertório básico, que cresceram sem ter a oportunidade de ter acesso, porque foram sempre surdas, ou porque ficaram surdas após algum tempo. A estimulação do implante coclear, por exemplo, pode só gerar dor porque a estimulação é feita diretamente no nervo, por isso é importante que logo que ocorrer o implante ele possa virar um elemento do sistema de comunicação.

Como este Núcleo tem participado e avalia a discussão atual sobre a utilização de animais em pesquisas, muito condenada por vários grupos defensores dos animais e do meio ambiente?
Galvão –
A legislação é novíssima e, finalmente, passou a Lei Arouca que veio para regulamentar a pesquisa com animais e, mesmo assim, ela é muito genérica. As universidades estão discutindo o problema da pesquisa com animais e da qualidade de vida desses seres. Recentemente, recebi um professor da Universidade do Amazonas que está organizando um encontro para debater sobre os biotérios e os animais de pesquisa.
Do ponto de vista amplo, isso é muito discutível. A interface com a normatização e a legislação, acho que até felizmente, tem sido lenta, porque não adianta fazer uma legislação específica que vá travar, em vez de liberalizar. Mas existem alguns acordos internacionais em vigor e todo mundo, de certa forma, só publica trabalhos com animais se estiver de acordo com as declarações universais de proteção aos direitos dos animais. Mas evidentemente a sociedade quer mais.
Aqui mesmo no nosso laboratório, gradualmente, serão construídas novas instalações para os animais, o que é uma estrutura muito cara. Conseguimos agora financiamento que permitirá ficar entre o desejável e o atual. Temos hoje seis gaiolas com 2,5m de aresta e será construída uma que terá 4m de altura e 20m de comprimento. Uma das paredes será de vidro, o que vai humanizar muito mais a residência dos animais, e a travessia deles para o laboratório será reduzida a uma porta. Os macacos irão transitar por conta própria, o que é adequado para o tipo de pesquisa realizada aqui neste laboratório.
Um outro aspecto interessante dessa discussão sobre a ética com animais de laboratório é que você precisa tratar tanto mais humanamente o animal quanto mais ele é próximo do ser humano na escala biológica, o que parece um contra-senso. Por exemplo, o pesquisador só pode utilizar um chimpanzé se ele provar que não pode usar um animal mais simples. Acho isso estranho porque parece que esses outros animais tem menos direitos. De certa forma, a nossa ética é à nossa imagem e semelhança…Talvez precisemos de uma nova geração para ter uma compreensão melhor da gradação em que somos afetados pela maneira como tratamos os animais.

Há algum acordo de cooperação deste Núcleo com o Centro de Primatas do Pará?
Galvão –
Sim. Sempre houve um acordo de cooperação. Quando tenho um sujeito que não será mais utilizado, eles são os primeiros a ser consultados para ver se querem o animal, assim como quando precisamos de novos sujeitos pedimos primeiro para eles e depois para o Ibama. Também já fizemos pesquisas lá dentro e eles nos abriram as portas. Hoje, trabalhamos com a mesma veterinária de lá do Evandro Chagas – Klena Sarges -, que está fazendo o doutorado no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, em articulação com a Unifesp, e pesquisa com células-tronco no Mal de Parkinson. O nosso laboratório fará parte dessa pesquisa.

Em relação ao Ibama, como se dá a vinculação com este Núcleo, em função dos animais utilizados nas pesquisas?
Galvão –
Há um tempo atrás, o Ibama colaborou muito com este laboratório, porque repassava para nós animais apreendidos, que não queria soltar no mato porque, tendo sido criados em cativeiro desde cedo, esses animais não resistiriam e morreriam. Isso aconteceu até que chegamos no nosso limite de lotação. Agora, com esse financiamento, teremos uma nova residência grande e, provavelmente, poderemos contar com o Ibama, e com o próprio Centro de Primatas, para os novos 16 macacos que iremos ter.

Quanto à fiscalização, o Ibama mantém alguma normatização que um centro de pesquisa precisa cumprir?
Galvão –
Indiretamente sim. Eles exigem que tenhamos assistência técnica veterinária e que as condições de alojamento, de limpeza e de alimentação estejam de acordo com as normas. Fizeram a fiscalização inicial e viram que temos um bom criatório. A partir daí, o controle é indireto, com relatórios anuais, mas de vez em quando técnicos do Ibama aparecem para fazer a fiscalização local.

***NOTA: não pedi permissão à autora, nem ao Portal Cultura, para a reprodução dessa entrevista. Portanto, se alguém se sentir ofendido ou prejudicado, é só entrar em contato, ok?!?!

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